A aliança entre multilatinas e PMEs: motor da competitividade na América Latina

27 Março 2015

No mundo atual, o comércio está migrando para locais em que se possa agregar valor, e não necessariamente para onde se produza mais barato. Com efeito, a expansão produtiva impulsionada pelas cadeias regionais e globais de valor colocou em evidência os ganhos de eficiência baseados na fragmentação dos processos produtivos e o benefício de adicionar valor com aportes realizados em diferentes lugares do mundo.

 

Ainda, o crescimento do comércio de serviços associados às cadeias de valor, não capturado pelas estatísticas, parece ser superior às trocas de partes, peças, componentes e acessórios, que, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), representaram mais de 50% do intercâmbio mundial de bens[1] em 2012.

 

A relevância das multilatinas

 

Com a abertura econômica da América Latina, algumas grandes empresas aproveitaram o conhecimento de seus mercados para buscar sua expansão na região por meio de aquisições e investimentos no exterior.

 

Assim, surgiram as multilatinas, denominação que se refere às empresas multinacionais latino-americanas que atuam no nível regional e adquirem dimensões organizacionais comparáveis às multinacionais. Essas empresas constroem sua fortaleza a partir de sua posição estratégica no mercado doméstico e de sua capacidade de competir com as multinacionais presentes na América Latina. Entre suas prioridades, está a ampliação das operações nos mercados de outros países da região.

 

Outra característica das multilatinas é a incorporação de pequenas e médias empresas (PMEs) em suas cadeias de valor – prática comum das corporações. No entanto, a participação das PMEs da região tanto nas cadeias de valor das multilatinas como dentro das multinacionais tem ocorrido de forma lenta, se comparada à incorporação de seus pares em países similares de outras regiões.

 

De todo modo, a incorporação das PMEs constitui uma clara oportunidade para que as multilatinas possam se converter em motor de criação de valor, inovação e fornecimento de bens e serviços produzidos por elas. Setores como transporte aéreo, químicos e petroquímicos, construção, energia e comércio varejista adquirem serviços[2] e bens básicos ou intermediários das PMEs.

 

A chave é conciliar demanda e oferta. Bons exemplos dessas práticas podem ser encontrados nas companhias aéreas Avianca-Taca e Copa Airlines, que apresentam uma incorporação de PMEs cada vez mais ampla em suas operações.

 

Desafios para a aliança ente as PMEs e as multilatinas

 

Para que se conheçam melhor as oportunidades geradas pelas multilatinas, é preciso analisar a dinâmica das cadeias de valor das quais fazem parte empresas desse tipo. Uma característica essencial das cadeias de valor é sua complexidade e, nesse sentido, não existem dificuldades estruturais em incorporar PMEs às cadeias. Também, é crucial que as instituições de apoio ao comércio atuem na conexão entre oferta e demanda, de modo que sejam mais conhecidos os benefícios da inserção nas cadeias de valor.

 

Por outro lado, as capacidades gerenciais das PMEs para superar novos desafios são limitadas. A participação nas cadeias de valor e o deslocamento no interior destas exigem tarefas adicionais, que se estendem do desenvolvimento do produto, à organização e monitoramento da rede de subfornecedores (como na indústria automobilística), até inovações organizacionais e de marketing (especialmente na indústria do turismo e de cinema). Dados os volumes requeridos nesse segmento de mercado, será preciso que as PMEs se associem a outras empresas desse porte para que, operando sob a modalidade de consórcio, desenvolvam um sistema conjunto de abastecimento ou um esquema de subcontratação para atender aos compradores de forma mais rápida e efetiva.

 

Outro fator a considerar é o custo e a dificuldade que as PMEs enfrentam no cumprimento de padrões estritos de qualidade, necessários à participação nesse segmento de mercado. É cada vez mais comum que as grandes companhias estabeleçam padrões voluntários como forma de garantir a sustentabilidade econômica e ambiental, a qualidade e a rastreabilidade dos produtos – especialmente os alimentícios. O cumprimento de padrões voluntários é um pré-requisito para a incursão e a permanência das PMEs nas cadeias de valor.

 

Todavia, o acesso das PMEs a mecanismos de financiamento é limitado, principalmente na América Latina. Em geral, antes de converter-se em fornecedora ou filiada de uma multilatina, é preciso que a PME realize investimentos para modificar processos ou adequá-los aos padrões exigidos. Uma vez parte da rede de fornecimento e devido ao desequilíbrio de poder entre as multinacionais e as PMEs, estas últimas são forçadas a aceitar termos desfavoráveis de transação para poder permanecer no negócio[3].

 

Ademais, devido ao porte das PMEs, os bancos normalmente impõem condições de crédito mais duras, assim como controles de risco mais estritos, de forma que limitam o acesso de tais empresas a opções de crédito mais sofisticadas – como o factoring financeiro. O pouco conhecimento das PMEs sobre temas financeiros e os requisitos relacionados impõem uma restrição adicional ao acesso a diversos recursos e financiamentos. A isso, soma-se a falta de garantias que respaldem as operações de crédito.

 

Também, as PMEs são gravemente afetadas pela assimetria no acesso à informação. Mesmo com as novas tecnologias de comunicação e informação, as PMEs que buscam operar em mercados regionais e internacionais desconhecem como acessar novos nichos. E quando a informação está disponível, encontra-se fragmentada – e cada vez mais. O investimento para que uma PME reúna as informações necessárias para exportar é desproporcionalmente mais expressivo que no caso das companhias maiores, posto que precisam empregar recursos internos para conhecer novos mercados ou pagar consultorias externas para identificar oportunidades de comércio para o perfil de sua empresa. Ademais, um maior acesso das PMEs à informação é condição essencial para que tomem conhecimento dos padrões sem que isso eleve os custos de forma significativa.

 

Por fim, a capacidade das PMEs de participar nas cadeias de valor das multilatinas pode ser prejudicada pela proliferação de medidas não-tarifárias, como procedimentos aduaneiros, requisitos sanitários e fitossanitários, padrões públicos e impostos corporativos. Isso porque tais medidas oneram a livre circulação de bens e aumentam os custos de logística e transporte.

 

Com as diferentes etapas produtivas localizadas em países distintos, os bens intermediários atravessam as fronteiras nacionais em mais de uma ocasião. Como nunca, mais transações transfronteiriças são necessárias para produzir uma única peça de um produto acabado. Por isso, o aumento nos custos resultante da imposição de medidas não-tarifárias torna-se mais significativo do que em uma transação comercial que envolve apenas uma movimentação transfronteiriça. Os efeitos econômicos dessas medidas sobre a competitividade das empresas nem sempre são levados em conta pelos formuladores de políticas públicas na região. É aí que adquirem relevância os esforços voltados à facilitação do comércio.

 

Apesar de todas as barreiras mencionadas, as PMEs da América Latina podem encontrar oportunidades nas cadeias de suprimento das multilatinas. Quando conseguem se posicionar nessas complexas cadeias de valor, as PMEs tendem a alcançar uma qualidade reconhecida mundialmente. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que as empresas inseridas nessas cadeias aumentam sua inovação e estimulam o desenvolvimento de novas tecnologias no país anfitrião.

 

Por isso, as políticas públicas devem melhorar o ambiente para auxiliar o desenvolvimento empresarial no nível público e privado. Casos de sucesso ao redor do mundo mostram que, na fase de preparação para a inserção exitosa em uma cadeia global de valor, várias políticas públicas foram fundamentais, tais como: qualificação profissional, criação de infraestrutura, apoio à inovação e acesso ao crédito para pequenas empresas.

 

Dessa maneira, as empresas podem agregar valor aos produtos e alcançar padrões de qualidade mais altos. Para conseguir isso, é importante trabalhar em mais e melhores análises de clientes potenciais, participar de associações que facilitem a articulação com empresas como as multilatinas, capacitar mão-de-obra em ofícios necessários (mecânicos e soldadores, por exemplo), assim como conhecer o mercado interno e fornecer informação para promover a inserção no mercado internacional.

 

Considerações finais

 

A importância das PMEs para a América Latina está fora de questão: além de empregarem três quartos da população economicamente ativa, são protagonistas das transformações atuais da economia. No entanto, as PMEs da América Latina e do Caribe possuem uma carência em termos de produtividade quando comparadas a seus pares asiáticos, responsáveis por 50% do produto interno bruto (PIB), participação amplamente superior aos cerca de 30% do PIB por que respondem as PMEs latino-americanas.

 

Espera-se que o Acordo sobre Facilitação do Comércio, aprovado na Conferência Ministerial de Bali, reduza em cerca de 10% o custo das transações no mercado mundial e um percentual bastante superior no que diz respeito às PMEs da América Latina.

 

Com o apoio da Secretaria de Integração Econômica Centro-Americana, o Centro de Comércio Internacional (ITC, sigla em inglês) está implementando um projeto que visa a aumentar a competitividade das PMEs da América Central, mediante a conexão destas com as respectivas multilatinas. Os setores ainda não estão definidos, mas a proposta é que se desloque das tradicionais commodities para produtos de maior valor agregado – por exemplo, a indústria de tecnologia da informação e equipamentos médicos.

 

As multilatinas constituem uma esperança para a região pelo valor que podem incorporar a seus produtos e processos. Trata-se de uma oportunidade para que a América Latina e o Caribe, em especial suas PMEs, superem os indicadores do Fórum Econômico Mundial (WEF, sigla em inglês), que mostram tanto o nível de atraso por falta de desenvolvimento quanto o estancamento da competitividade dessa região.

 

À medida que as PMEs se integrem a companhias bem sucedidas e altamente sofisticadas, que tenham desenvolvido seu modelo próprio de cadeia global de valor, os níveis competitivos da região serão impulsionados.

 

* Claudia Uribe é chefe do Escritório para a América Latina e o Caribe do Centro de Comércio Internacional.




[1] Essa informação não inclui o comércio de combustíveis.

[2] A contratação de serviços de PMEs é particularmente expressiva nos setores de alimentos, bebidas, acessórios, artigos de limpeza, decoração, carpintaria e artigos de couro.

[3] Um exemplo é o prazo de pagamento de 90 dias após a entrega das mercadorias.

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