A Internet e o desenvolvimento do e-commerce: implicações para as políticas públicas da América Latina

17 Agosto 2016

O advento da Internet, na década de 1990, produziu a expectativa de que o comércio eletrônico (e-commerce) gerasse benefícios significativos e promovesse a aproximação entre empresas (relação conhecida como B2B, em inglês), bem como entre empresa e consumidor (B2C, em inglês). Ao mesmo tempo, o abismo que separa os países em matéria digital tem sido reconhecido como um problema de preocupação internacional[1].

 

As lideranças do G-8, reunidas em Okinawa (Japão) em julho de 2000, chamaram atenção para a necessidade de uma maior participação global no aproveitamento de oportunidades digitais e na redução da desigualdade digital entre os países. Em reunião nas Nações Unidas, em setembro do mesmo ano, os líderes mundiais adotaram a Declaração do Milênio, a qual foi posteriormente transformada nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Uma das metas ali estabelecidas era tornar os benefícios das tecnologias de informação e comunicação (TICs) acessíveis a todos, em cooperação com o setor privado. Coordenados internacionalmente, tais esforços contribuíram para melhorar a penetração da Internet de 6% em 2001 para 43% em 2015[2].

 

Difusão das TICs no Sudeste asiático e na América Latina

 

A penetração das TICs depende, de certo modo, do nível de renda e, por conseguinte, tende a ser mais elevada na América Latina do que no Sudeste asiático. Em 2013, o número de usuários de Internet por 100 habitantes era de 47,6 na América Latina, e 26,2 no Sudeste asiático[3]. Apesar do número elevado de países em cada uma dessas regiões, os dados disponíveis para os países de menor desenvolvimento relativo são limitados. Nesse sentido, este artigo concentra-se em seis grandes países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru) e seis do Sudeste asiático (Cingapura, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietnã).

 

De acordo com os indicadores dos ODM, em 2014, a taxa de penetração da Internet nos seis países latino-americanos mencionados acima era distribuída da seguinte forma: 40,2% no Peru; 44,4% no México; 52,6% na Colômbia; 57,6% no Brasil; 64,7% na Argentina; e 72,4% no Chile. No caso dos países asiáticos selecionados, essa taxa foi de 17,1% na Indonésia; 34,9% na Tailândia; 39,7% nas Filipinas; 48,3% no Vietnã; 67,5% na Malásia; e 82% em Cingapura.

 

A qualidade da conexão de Internet afeta o acesso à informação, bem como seu uso. A velocidade média de conexão à Internet no mundo foi de 5.6 Mbps no quarto trimestre de 2015[4]. Por região, a velocidade média de conexão na América Latina foi de 6.1 Mbps no Chile; 5.9 Mbps no México; 4.7 Mbps na Argentina; 4.5 Mbps na Colômbia e no Peru; e 4.1 Mbps no Brasil. Já no Sudeste asiático, essa média foi de 3.2 Mbps nas Filipinas; 3.8 Mbps no Vietnã; 3.9 Mbps na Indonésia; 5.2 Mbps na Malásia; 9.3 Mbps na Tailândia; e 13.9 Mbps em Cingapura.

 

Esses números indicam que são necessários esforços contínuos para melhorar a penetração da Internet no Sudeste asiático, especialmente em Indonésia, Tailândia e Filipinas. Se uma velocidade de conexão de Internet de 4 Mbps é considerada o limiar da banda larga, a velocidade de conexão não é alta nas Filipinas, Vietnã e Indonésia. No entanto, esses três países melhoraram de forma considerável a velocidade média de sua conexão desde o quarto trimestre de 2007, quando as velocidades médias registradas nas Filipinas foram de 1.0 Mbps, e de 0.8 Mbps no Vietnã e na Indonésia.

 

E-commerce B2C no mundo

 

A difusão das TICs trouxe mudanças substanciais para diversas atividades relacionadas aos negócios. As TICs criaram relações online mais diretas e interativas entre as empresas e entre empresas e consumidores. Em particular, o e-commerce B2C pode ter apresentado um efeito mais significativo sobre uma gama maior de empresas (incluindo aquelas de grande, médio e pequeno porte) do que o e-commerce B2B. A maioria das transações feitas via e-commerce B2B, que envolvem principalmente as grandes empresas, teve por base intercâmbios eletrônicos de dados e redes de valor agregado. O legado desses sistemas migrou para a Internet no início da penetração do e-commerce B2B. Por outro lado, o e-commerce B2C criou a possibilidade de que mesmo pequenas e médias empresas sejam capazes de vender indiretamente seus produtos aos consumidores finais em todo o mundo via shoppings online ou diretamente, via suas próprias lojas online.

 

Apesar da dificuldade de acesso a estatísticas públicas consistentes sobre e-commerce, é possível estimar a dimensão desse mercado a partir de números divulgados por empresas privadas. Entre essas fontes de dados, destaca-se a eMarketer, segundo a qual as vendas mundiais via e-commerce de varejo passaram de US$ 286 bilhões em 2000 para US$ 550 bilhões em 2001 – um aumento de 92%. Nesse período, as operações na América do Norte responderam por quase 80% do mercado de e-commerce global[5].

 

Um relatório publicado recentemente pela eMarketer[6] mostrou que o e-commerce B2C mantém um crescimento elevado e continua a penetrar nos países em desenvolvimento. O relatório estima que o total de vendas via e-commerce de varejo no mundo (excluindo os bilhetes de viagem e eventos) cresceu 25,1%: de US$ 1,3 trilhão em 2014 para US$ 1,7 trilhão em 2015. Esse volume de vendas representa 7,4% do total de vendas no varejo em todo o mundo. Por região, a Ásia-Pacífico foi responsável por 52,5% das vendas mundiais de e-commerce em 2015; a América do Norte, por 22%; a Europa Ocidental, por 19%; a Europa Central e do Leste, por 3,1%; e a América Latina, por 2,5%. Contudo, se os países desenvolvidos (como Austrália, Japão e Coreia do Sul) e os países populosos (como China e Índia) forem excluídos da amostra, a Ásia-Pacífico responde por 2,7% das vendas globais de e-commerce, quase o mesmo percentual que a cota global da América Latina.

 

Na análise por países, a China (excluindo Hong Kong) e os Estados Unidos são os maiores mercados de e-commerce de varejo no mundo e responderam, respectivamente, por 40,2% e 20,4% das vendas globais de e-commerce de varejo em 2015. Entre os países da Ásia-Pacífico, o Japão (5,4%) e a Coreia do Sul (2,3%) ocuparam a quarta e a sétima posições entre os maiores mercados. Austrália, Índia e Indonésia, por sua vez, representaram 1,1%, 0,8% e 0,2%, respectivamente, do mercado global. Entre os países da América Latina, o Brasil é o nono maior mercado de e-commerce no varejo mundial, respondendo por 1,2% das vendas, enquanto, na Argentina e no México, esse percentual corresponde a 0,3%.

 

Cada vez mais, os usuários da Internet têm se familiarizado com o e-commerce B2C. Em 2015, cerca de 51,5% dos usuários mundiais de Internet fizeram pelo menos uma compra por meio de um canal digital. Embora a taxa de penetração seja alta em países desenvolvidos, como Japão (82%), Austrália (79,4%) e Estados Unidos (75,6%), essa taxa, na China, é de 64,8%, percentual bastante próximo daquele registrado na Coreia do Sul (65,2%). Para outros países da Ásia-Pacífico, os números foram de 37,3% para a Índia e 29,5% para a Indonésia. Na América Latina, 48,3% dos usuários argentinos de Internet realizaram uma compra via canal digital, 40,3% dos usuários brasileiros e 32,3% dos mexicanos[7].

 

Oportunidades para o e-commerce B2C transfronteiriço

 

As cifras mencionadas na seção anterior para a difusão das TICs e o estado atual do e-commerce indicam a importância e o potencial no comércio eletrônico B2C de varejo nos países em desenvolvimento. Muitas empresas e formuladores de políticas públicas estão interessados ​​em promover as exportações através do e-commerce B2C transfronteiriço com países em desenvolvimento, especialmente com a China.

 

Curiosamente, os usuários da Internet nos países em desenvolvimento não apresentam uma forte relutância em fazer compras transfronteiriças em comparação com os usuários de países desenvolvidos. Entre os consumidores online, fazem compras transfronteiriças 36% dos chineses; 69% dos cingapurianos; 67% dos mexicanos; 49% dos brasileiros; e 45% dos argentinos[8].

 

Em contraste, o percentual de compradores online dos Estados Unidos e do Japão é de, respectivamente, 22% e 12%. Com base em sua pesquisa publicada em 2013, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI, sigla em inglês) do Japão relatou que os compradores online de Cingapura, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã não possuem sérias preocupações com relação ao e-commerce transfronteiriço, em comparação com o e-commerce doméstico. Essas observações fortalecem o potencial transfronteiriço do e-commerce com países em desenvolvimento.

 

No entanto, o mercado chinês geralmente atrai maior atenção do setor privado devido ao seu porte. De acordo com estimativas da eMarketer, 128 milhões de chineses são consumidores de e-commerce transfronteiriço de varejo, o que significa que 31% dos consumidores chineses online movimentaram um total de US$ 57,1 bilhões em 2015[9]. As principais origens dos produtos consumidos por esses chineses são Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, e os principais produtos e serviços consumidos incluem roupas, cosméticos/beleza, alimentos/álcool, eletrônicos e viagens. Muitas vezes, os consumidores chineses online buscam vendedores online estrangeiros que ofereçam bens difíceis de serem encontrados em lojas locais, produtos mais baratos que no mercado doméstico ou simplesmente produtos com melhor qualidade que aqueles feitos na China.

 

No entanto, a aquisição de bens via e-commerce transfronteiriço não ocorre sem preocupações. Para os consumidores asiáticos de modo geral, as principais variáveis nesse sentido são os idiomas utilizados nos centros de compras online, as tarifas aduaneiras, o tempo de entrega do produto, o custo, a segurança de pagamento e os serviços pós-venda.

 

Implicações para a América Latina

 

Embora as perspectivas do e-commerce varejista na Ásia continuem promissoras, é preciso que as empresas estrangeiras considerem sua estratégia de negócios com cautela ao participar do e-commerce B2C transfronteiriço. O mesmo cuidado deve ser empreendido com relação a leis e regulamentos pertinentes, tributação, logística e métodos de pagamento. Essas questões podem ser resolvidas com a concorrência e cooperação entre empresas de diferentes setores ou de diferentes países, ou ainda mediante a cooperação e negociação internacional.

 

A concorrência nos mercados de consumo online na Ásia está se tornando mais expressiva. Algumas lojas online chinesas (como Alibaba e JD) têm crescido e se elevado a empresas de classe mundial – o que pode ter atraído muitos clientes do Sudeste asiático. Portanto, a penetração de lojas online na China por lojas online da América Latina é bastante desafiadora devido à concorrência das empresas chinesas. Por outro lado, à medida que as lojas chinesas online aprofundam sua internacionalização e desenvolvem plataformas de e-commerce transfronteiriço, os vendedores da América Latina podem ter um acesso melhor aos consumidores chineses, abrindo suas lojas em shoppings chineses online.

 

A distância do mercado asiático em relação à América Latina é outro grande revés. No entanto, essa dificuldade pode ser atenuada por meio da melhoria da conectividade física e institucional, além da conexão entre pessoas. Os membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, sigla em inglês) avançaram de modo significativo no aprimoramento da conectividade mediante a integração econômica e iniciativas de cooperação. Além disso, as regras incorporadas à Parceria Transpacífica (TTP, sigla em inglês) buscam garantir o intercâmbio transfronteiriço de produtos e informações, bem como a proteção dos consumidores. Essa estrutura contribui para que empresas privadas estabeleçam uma colaboração mais estreita em matéria de logística e comércio.

 

As empresas latino-americanas também precisam desenvolver qualidade, produtos exclusivos e criar imagens de marca favoráveis. Além de marketing estratégico, a promoção do turismo complementa as atividades de marketing que divulgam informações sobre os produtos locais da América Latina entre os consumidores. Afinal, existem incentivos para que turistas comprem produtos dos países que visitam.

 

Por fim, as barreiras linguísticas têm um impacto crucial na tomada de decisão dos consumidores. As lojas online podem oferecer serviços de chat ou e-mail para ajudar os consumidores a entender os produtos e serviços que comercializam. Desse modo, as lojas online precisam empregar pessoal com fluência em diversos idiomas estrangeiros e devem prestar serviços eficientes de apoio aos clientes.

 

* Yasushi Ueki é economista, pesquisador do Economic Research Institute for ASEAN and East Asia (ERIA), Jacarta (Indonésia).




[1] As opiniões expressadas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente os pontos de vista da organização.

[2] Ver: UN. The Millennium Development Goals Report 2015. Nova York: UN, 2015. Disponível em: <http://bit.ly/1gjxI03>.

[3] Disponível em: <http://bit.ly/2aETYnQ>.

[4] Ver: Akamai Technologies. The state of the Internet Q4 2015 report. Cambridge (MA): Akamai Technologies, 2016. Disponível em: <http://akamai.me/2b5MgzU>.

[5] Disponível em: <http://bit.ly/2ascAGt>.

[6] Disponível em: <http://bit.ly/2ascAGt>.

[7] Ver: eMarketer. Worldwide retail ecommerce sales: eMarketer's updated estimates and forecast through 2019. Nova York: eMarketer, dez. 2015. Disponível em: <http://bit.ly/22JdIGA>.

[8] Disponível em: <http://bit.ly/1NoIOJy>.

[9] Disponível em: <http://bit.ly/28Ik72u>.

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