Comércio entre Brasil e Leste asiático: mais do mesmo?

25 Setembro 2014

Historicamente, as relações do Brasil com a Ásia não figuraram entre as prioridades da política externa brasileira. Uma exceção nos anos recentes foi o destaque dado à China no contexto dos BRICS; e a “parceria estratégica” firmada entre os dois países na década de 1990, por esforço do embaixador brasileiro em Beijing, Roberto Abdenur.

 

Por muito tempo, a política externa brasileira esteve voltada para os Estados Unidos e para seus vizinhos latino-americanos. A relação triangular estabelecida na década de 1930 entre Brasil, América Latina e Estados Unidos ainda encontra repercussão nos dias atuais[1].

 

Diante desse quadro, este artigo analisa como a política comercial para a Ásia acompanhou os traços gerais que marcaram a política externa brasileira.

 

A política externa brasileira para a Ásia

 

As relações brasileiras com o Leste asiático tiveram início no final do século XIX[2], mas foi somente a partir da década de 1950 que a Ásia começou a surgir – embora timidamente – como uma opção para o governo brasileiro. Nesse período, foram atraídos investimentos japoneses para os segmentos de construção naval, siderurgia, metalurgia e automóveis.

 

As prioridades brasileiras sempre foram os países vizinhos, os Estados Unidos e os países europeus. Nos últimos 20 ou 30 anos, entretanto, o Brasil ampliou suas relações diplomáticas com a Ásia: além da criação de embaixadas em diversas capitais da região, foram realizadas visitas oficiais e incrementadas as trocas comerciais principalmente com Japão e China.

 

Na década de 1960, no contexto da política externa independente (PEI), uma das medidas que caracterizaram a nova disposição do país com relação à Ásia foi o reconhecimento, por parte do governo Geisel, da China continental como República Popular da China e o descredenciamento de Taiwan – movimentos contrários àqueles empreendidos pelos Estados Unidos.

 

A China era percebida pelo Brasil como uma oportunidade; e o Brasil passou a ser visto com bons olhos pelos investidores estrangeiros. Nesse momento, o país também estreitou laços com o Japão, que retomava seus investimentos no Brasil, o que possibilitava maior intercâmbio comercial, investimentos e cooperação tecnológica. O Japão associou-se a empresas estatais brasileiras, em busca da convergência de interesses e da estabilidade política em seus investimentos.

 

Nesse contexto, o presidente João Batista Figueiredo foi o primeiro mandatário brasileiro a visitar a China, em 1984; nesse mesmo ano, passou pelo Japão e assinou acordos sobre a imigração japonesa e cooperação em ciência e tecnologia[3].

 

Apesar do interesse manifestado pelo Itamaraty em ampliar as relações políticas e comerciais com a Ásia no período posterior à Guerra Fria[4], não foram observados movimentos consistentes nessa direção.

 

A partir do governo Fernando Henrique, as relações do Brasil com os países asiáticos são estreitadas, o que pode ser exemplificado pela criação do Fórum de Cooperação América Latina-Ásia do Leste (FOCALAL). Criado em 1999 com a função de promover o diálogo político e econômico e a cooperação entre as regiões, o FOCALAL constituiu, nos primeiros dez anos de sua existência, o eixo institucional em torno do qual o comércio entre as regiões quadruplicou. No entanto, a disparidade entre seus membros – por exemplo, entre Japão e Mianmar, no Leste asiático; e Brasil e Nicarágua, na América Latina – enfraqueceu um possível aprofundamento desse quadro[5]. Ainda, destaca-se a realização frequente de missões empresariais conduzidas pelo governo brasileiro à China e a recente criação do Banco dos BRICS. Tais movimentos indicam um crescente interesse por parte do Brasil em aproximar-se cada vez mais de seu principal parceiro comercial na Ásia: a China.

 

O relacionamento brasileiro com a China tem sido estreitado nos últimos anos principalmente na área de comércio e na agenda de cooperação Sul-Sul. Desde a virada do século, o continente asiático tornou-se o principal destino das exportações brasileiras, em grande medida devido às demandas chinesas. Desde 2009, a China ocupa a posição de maior mercado de exportações e principal sócio comercial brasileiro. Além da China, o comércio e o investimento brasileiros expandiram em outros países da Ásia, tais como Indonésia, Índia e Coreia do Sul. Mesmo assim, ainda é possível afirmar que o relacionamento do Brasil com o Japão é inercial; com a Coreia do Sul, incipiente; e com o Sudeste asiático é praticamente inexistente[6].

 

O Brasil é para a Ásia fonte de matéria-prima e insumos básicos, e o interesse brasileiro naquela região está na atração de investimentos, no acesso ao amplo mercado asiático e na tecnologia de ponta da região[7]. Atualmente, o Brasil tem acordos de energia com China, Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia, Japão e Vietnã, com o intuito de tornar-se um fornecedor de etanol para a Coreia do Sul e o Japão[8].

 

Obstáculos ao aprofundamento das relações comerciais

 

Os fluxos comerciais do Brasil com o Leste asiático apresentam características duradouras. A primeira delas é a assimetria qualitativa do fluxo comercial, com exportações brasileiras predominantemente de commodities e produtos semimanufaturados e importações de bens manufaturados. Esse quadro era válido quando o principal importador era o Japão, entre as décadas de 1950 e 1990, e permanece válido a partir do momento em que a China se torna o principal importador de produtos brasileiros. 

 

A segunda é a grande participação de tradings estrangeiras tanto na exportação quanto na importação do Brasil (à exceção da Vale). De certo modo, o fluxo comercial sempre representou muito mais o resultado dos interesses comerciais estrangeiros do que das iniciativas governamentais brasileiras. Esse quadro está diretamente associado à já tradicional “timidez” exportadora de boa parte das empresas brasileiras, mais preocupadas em explorar o mercado interno.

 

A terceira característica está relacionada aos elevados custos de transporte, decorrentes da grande distância entre Brasil e Leste asiático. No caso das exportações brasileiras, esses custos são incrementados devido aos já conhecidos gargalos logísticos. Dessa forma, apenas produtos em que o diferencial qualidade-preço seja muito expressivo (por exemplo, soja ou hematita) podem ser considerados competitivos frente a outros fornecedores para o Leste asiático.

 

A quarta é a existência de diversos fornecedores de produtos semimanufaturados e manufaturados no próprio Leste asiático, fruto da expansão das empresas japonesas e posteriormente chinesas e sul-coreanas. Tal fator praticamente inviabiliza o aumento significativo de exportações brasileiras mais intensivas em tecnologia. Nesse caso, a ocorrência apenas episódica de exportações de produtos como aviões ou ônibus não refuta a tendência mencionada.

 

Existe a possibilidade de superar os obstáculos e alterar as tendências apresentadas? As perspectivas não são animadoras, caso persistam as características que marcaram a trajetória das relações do Brasil com a Ásia.

 

Os países asiáticos sempre buscaram garantir o Brasil como fornecedor confiável de matérias-primas no longo prazo, além do intuito de moderar o preço das commodities no mercado internacional. Por exemplo, a expansão da produção brasileira de soja teve participação fundamental do Japão. Em 1973, o governo estadunidense embargou as exportações de soja (inclusive em relação a contratos já fechados), de modo a tentar controlar a inflação. O Japão era totalmente dependente das exportações de soja dos Estados Unidos e teve que buscar fornecedores alternativos. Nesse contexto, o governo japonês estabeleceu, em 1974, o Prodecer I (seguido pelo Prodecer II), programa de cooperação com o Brasil por meio do qual investimentos eram destinados à realização de pesquisas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Desde então, o Brasil tornou-se o maior competidor dos Estados Unidos na exportação de soja[9].

 

A posição do Brasil como fornecedor confiável de commodities também baliza o comportamento chinês em relação às exportações brasileiras. De fato, elementos como a distância e os gargalos logísticos, os quais incorrem gastos elevados; a baixa competitividade frente a fornecedores mais próximos, no próprio Leste asiático; e o pouco empenho da maioria das empresas brasileiras em prospectar nichos de mercado são apenas a antessala de um problema maior: o afastamento brasileiro da formação de cadeias produtivas globais a partir de grandes alianças comerciais[10].

 

Afinal, enquanto as principais nações do Leste asiático têm se dedicado a propostas cada vez mais integradas de arranjos comerciais, tanto no âmbito da APT[11] quanto em iniciativas como a Parceria Transpacífica (TPP, sigla em inglês) – neste último caso, sem a participação da China –, o Brasil não tem sido capaz de mobilizar os demais membros do Mercado Comum do Sul (Mercosul) nessa direção. De fato, as elites econômicas do próprio Mercosul parecem muito mais preocupadas em garantir acesso ao mercado interno dos próprios países e exportar commodities para o Leste asiático do que incrementar o próprio Mercosul.

 

Exceto em nichos muito específicos, nos quais a competitividade dos produtos brasileiros supera concorrentes mais próximos ao Leste asiático (ou de outros competidores de commodities em nível mundial), as perspectivas de comércio entre as duas regiões tendem a replicar as características já existentes. Para alterar tal quadro, são recomendáveis medidas como promover a iniciativa empresarial, estimular a prospecção de mercados e oportunidades e desenhar estratégias específicas no âmbito governamental.

 

Esse cardápio já é do conhecimento de todos há décadas. Contudo, ao longo desse período, privilegiou-se a continuidade do fluxo de matérias-primas para o Leste asiático. De certo modo, trata-se de um perfil de política comercial induzido pela demanda asiática, e o Brasil tem correspondido a essa expectativa de forma consideravelmente passiva. Apesar das tentativas de aprofundamento das relações comerciais, não houve um esforço consistente nessa direção.

 

Considerações finais

 

O Brasil e o Leste asiático compartilham relações comerciais, políticas e sociais há mais de um século. No entanto, o aprofundamento quantitativo e qualitativo desse intercâmbio parece enfrentar obstáculos de difícil transposição.

 

Para isso, uma série de medidas deve ser adotada, a começar por um papel de maior destaque da Ásia na política externa brasileira, acompanhada da diminuição de uma série de entraves na estrutura produtiva/logística/empresarial do país. Afinal, deixar de estreitar os laços com a região mais dinâmica do capitalismo mundial parece ser uma decisão pouco sábia.

 

* Leticia Cordeiro Simões é mestre em Relações Internacionais pela UERJ e pesquisadora júnior do INCT-PPED. E-mail: leticia.simoes@uol.com.br

** Wellington Dantas de Amorim é doutorando em Ciência Política pela UFF e professor do Centro Universitário La Salle-RJ. E-mail: wda3059@gmail.com


[1] Ver: Ricupero, Rubens. O Brasil, a América Latina e os EUA desde 1930: 60 anos de uma relação triangular. In: Albuquerque, José Augusto Guilhon (org.). Sessenta Anos de Política Externa Brasileira (1930-1990). Vol I. 2ª Edição. São Paulo: Lumen Juris, 2006, p. 15.

[2] Ver: Amorim, Wellington; Oliveira, Henrique Altemani. O Relacionamento Brasil-Japão. In: Albuquerque, José Augusto Guilhon (org.). Sessenta Anos de Política Externa Brasileira (1930-1990). Vol III. 2ª Edição. São Paulo: USP, 2000, p. 475.

[3] Ver: Masiero, Gilmar. Negócios como Japão, Coréia do Sul e China: Economia, gestão e relações com o Brasil. São Paulo: Saraiva, 2007, pp. 282-291.

[4]  Disponível em: <www.itamaraty.gov.br/temas/balanco-de-politica-externa-2003-2010/2.5.2-a... Último acesso em 29/08/2014>.

[6] Ver: Oliveira, Henrique Altemani. Política Externa Brasileira. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 237.

[9] Ver: Hollerman, Leon. Japan’s economic strategy in Brazil: challenge for the United States. Lexington: Lexington Books, 1988, p. 226.

[10] Ver: Barbosa, Rubens. Cadeias produtivas globais. In: O Estado de São Paulo. Disponível em: <http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-brasil-fora-das-cadeias-produtivas-globais-imp-,1001501>.

[11] Sigla para designar “ASEAN Plus Three”, diálogo criado entre China, Coreia do Sul, Japão e os membros da Associação dos Países do Sudeste Asiático (ASEAN, sigla em inglês), com o objetivo de uma ampla coordenação regional econômica.

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