Exportação de serviços: uma alternativa viável para os países em desenvolvimento?

7 Março 2017

A tese de que países em desenvolvimento deveriam perseguir políticas arrojadas de exportação de serviços com fins de promover o emprego e o crescimento econômico tem se tornado um lugar-comum nos círculos governamentais, acadêmicos, empresariais e diplomáticos. A tese é mais que meritória, mas, infelizmente, carece de maior amparo empírico[1].

 

As exportações de serviços finais – ou seja, aqueles que países em desenvolvimento majoritariamente exportam – correspondem apenas a uma pequena fração das exportações totais de serviços quando contabilizados em valor adicionado. Isso porque a maior parte dos serviços transacionados entre-fronteiras está, direta ou indiretamente, “embutida” em outros produtos, sejam eles bens industriais, agrícolas, minerais ou mesmo outros serviços. Respondendo por cerca de 81% do total de serviços exportados, tratam-se de serviços comerciais na forma de pesquisa e desenvolvimento (P&D), licenças, softwares, marcas, design, serviços técnicos especializados, manutenção, serviços financeiros, seguros, serviços de logística, distribuição, serviços pós-vendas, entre muitos outros que respondem por uma parcela crescente do valor final dos bens. De fato, embora representem cerca de 20% de todo o comércio global, os serviços já correspondem a 54% do total quando contabilizados em valor adicionado. Estima-se que esse percentual chegue a 75% até 2025.

 

Exportar serviços “embutidos” nos bens não é tarefa simples, contudo. A experiência dos Estados Unidos, da Alemanha e de outros países avançados mostra que o desenvolvimento e a exportação de serviços estão diretamente associados à estrutura econômica do país. Já sabemos que quanto mais sofisticados forem a indústria e outros setores, mais sofisticado será o setor de serviços em razão da relação sinergética e simbiótica que une os dois setores[2].

 

A explicação para isso é simples: o desenvolvimento de serviços “responde” às demandas por soluções – novas e antigas – e por desafios tecnológicos e de mercado vindos de outros setores. Não por outra razão, a indústria manufatureira dos Estados Unidos é a principal financiadora de P&D no setor de serviços do país. Não devemos esperar, portanto, que serviços comerciais se desenvolvam de forma isolada ou autóctone, tampouco que países em desenvolvimento em geral venham a se tornar competitivos na produção daqueles serviços, já que possuem uma indústria manufatureira modesta.

 

As contas nacionais e as matrizes de insumo-produto têm limitações metodológicas para identificar a contribuição e a forma como os serviços geram riquezas nos dias atuais. Por isso, é precipitada a conclusão de economistas de que, com base na leitura pelo “valor de face” dos dados das mesmas contas nacionais, a servicificação é inerente ao processo de desenvolvimento econômico. O que já podemos dizer com segurança é que a servicificação “acompanha” as etapas do desenvolvimento econômico – e não que o determina. Os benefícios das exportações de serviços e da participação do setor no produto interno bruto (PIB) dependem, portanto, do estágio de desenvolvimento.

 

De fato, podemos distinguir ao menos dois grupos de países. Em um grupo, estão países com elevada participação dos serviços comerciais na economia, combinada com intensa participação nas fases mais nobres das cadeias de valor e com elevada exportação de serviços embutidos em bens. Um bom exemplo são os Estados Unidos.

 

Em outro grupo, estão países que também apresentam elevada participação do setor de serviços no produto, mas que exportam, quando muito, serviços de consumo final como turismo, cassinos, call centers e back-office e serviços comerciais de baixo valor agregado; e cujas firmas são normalmente pequenas, de baixa produtividade e tecnologia. Nesse grupo estão várias economias em desenvolvimento pequenas (como as do Caribe), que prematuramente registraram aumento do setor de serviços sem antes ter passado por um processo de industrialização.

 

Ainda, é possível identificar um terceiro grupo, constituído por economias emergentes, que viram sua indústria perder densidade e encolher ao tempo em que experimentaram prematuro crescimento do setor de serviços. Nos países nessa categoria, as exportações de commodities são predominantes, o conteúdo de serviços nos bens exportados é relativamente baixo, exportam-se eventualmente alguns serviços mais sofisticados de nicho e o setor de serviços é composto majoritariamente por empresas pequenas e de baixo ou muito baixo valor adicionado. Brasil e África do Sul figuram entre os expoentes desse grupo.

 

É mais que razoável que países em desenvolvimento sejam pragmáticos e continuem a explorar alternativas econômicas e incentivar exportações na área de serviços de consumo final e/ou de baixo valor agregado. Porém, tal estratégia não deve ser vista com conformismo, tampouco como uma panaceia para o desenvolvimento. O desafio dos países em desenvolvimento não é ter um setor de serviços grande ou que exporte muito, mas um setor de serviços que contribua para acelerar a prosperidade econômica e social. Como esses países geralmente possuem setores industriais limitados, pouco se pode esperar em termos de desenvolvimento de serviços mais avançados e de participação mais significativa nas fases mais nobres das cadeias globais de valor.

 

Existe, porém, um atalho para que aqueles países possam almejar adentrar na jornada da produção e exportação de serviços modernos. Trata-se do fomento ao desenvolvimento de serviços associados a setores em que o país já possui vantagem comparativa estática ou dinâmica revelada e que podem oferecer oportunidades únicas de desenvolvimento de conhecimento e de novos modelos de negócios.

 

São muitas as experiências nessa área. Um exemplo diz respeito à pecuária no Uruguai. Após ter sido afetado pela “doença da vaca louca”, no início dos anos 2000 – o que teve profundos efeitos sobre as exportações, o emprego e a renda –, o país perseguiu o objetivo de ser o primeiro a ter o gado bovino totalmente identificado e rastreado. Para tanto, teve que desenvolver conhecimentos e tecnologias de rastreamento desde o nascimento do animal até a carne chegar às gôndolas dos supermercados dos países importadores. Hoje, para os rancheiros uruguaios, instrumento de trabalho tão importante quanto o cavalo são os laptops e os chips. O Uruguai passou a produzir carne em conformidade com os padrões sanitários internacionais, cada vez mais rigorosos. Desenvolveu, ademais, todo um setor de tecnologia de rastreamento que já é vendido para o Brasil e outros países da região.

 

O caso do setor de flores ornamentais para exportação no Quênia também é ilustrativo. Para estar em condições de competir com outros países no acirrado mercado global de flores, o país teve que desenvolver serviços que viabilizassem a produção e a entrega competitivas na bolsa de flores da Holanda. Os vários segmentos de serviços desenvolvidos passaram a inspirar e contribuir para o potencial de negócios de outras atividades econômicas.

 

A Índia, por sua vez, tem explorado oportunidades emergentes nas áreas de tecnologia da informação (TI) e está se transformando em um dos principais polos produtores de serviços nesse setor no mundo. Diante da explosiva demanda por softwares necessários para viabilizar a indústria manufatureira 4.0 e a “Internet das coisas”, a Índia tem participado ativamente dessa agenda altamente sofisticada. Com isso, o país não apenas tem desenvolvido a sua indústria de TI, mas também criado condições para o avanço de sua própria manufatura.

 

No Brasil, o setor de serviços também pode ter contribuição relevante para o desenvolvimento econômico. Oportunidades não faltam. Considere, como exemplos, os setores de florestas, agropecuária e óleo e gás.

 

A lei que instituiu o Cadastro Ambiental Rural (CAR) determina que toda propriedade rural deve ter uma parcela mínima de matas. Como centenas de milhares de propriedades não cumprem com esse dispositivo do CAR, uma agenda de negócios na área do reflorestamento está sendo criada, com potencial de movimentar muitos bilhões de reais. Muito mais importante do que a indústria de mudas e cultivo é a oportunidade única de estímulo e desenvolvimento de serviços tecnológicos de planejamento, georreferenciamento, manejo florestal e monitoramento – entre outros serviços que viabilizem a conformidade das propriedades com o CAR e dentro do prazo e condições estabelecidos.

 

Considerando a demanda praticamente garantida de negócios para reflorestar milhões de hectares e a já relativamente avançada pesquisa acadêmica no setor no país, existiria uma grande janela de oportunidade para que o país avance na agenda de serviços de florestas. Em um período relativamente curto, é possível que o Brasil venha a se tornar um player global nesse setor.

 

No caso do agronegócio, o Brasil – um dos principais produtores e exportadores de commodities agrícolas do mundo – tem diante de si uma gigantesca oportunidade de explorar toda a agenda de serviços da cadeia de produção, agregação de valor e comercialização do agro. Isso pode envolver desde as ações mais simples, como assistência rural, até as mais avançadas, como o desenvolvimento de sementes e variedades, serviços de georreferenciamento e rastreamento por satélite e o comércio internacional de commodities. É muito provável que a taxa de retorno marginal dessas atividades seja substancialmente maior que aquela relacionada à produção dos grãos. Assim, o Brasil tem a oportunidade de tornar-se um grande player global em serviços do agronegócio, com impactos importantes na geração de renda, empregos e divisas.

 

Por fim, o caso do óleo e gás é igualmente revelador. Na condição de país líder no desenvolvimento de tecnologias para a prospecção de águas superprofundas e com grandes províncias ainda inexploradas, o Brasil poderia focar sua atenção não na exploração do óleo, mas nas tecnologias e serviços necessários para dar vazão à pesquisa, desenvolvimento de campos, produção e comércio do óleo e do gás, com a perspectiva de tornar-se um player global. A rica experiência da Noruega no desenvolvimento da indústria do petróleo por conta do Mar do Norte tem muito a ensinar ao Brasil.

 

Com muito esforço e investimento em capacitação de recursos humanos, o Brasil alcançou um nível de participação importante no supercompetitivo mercado global de projetos de engenharia e arquitetura, área de alto valor agregado e alavancadora da exportação de serviços de construção civil, máquinas e equipamentos. Em razão da Operação Lava-Jato, o setor perdeu fôlego. Uma vez normalizadas as questões legais e de governança pertinentes, as exportações do setor deveriam voltar a merecer atenção e até ser estimuladas pelas políticas públicas.

 

A questão, portanto, é menos se países em desenvolvimento e emergentes teriam ou não oportunidades de avanço na agenda de desenvolvimento e exportação de serviços mais sofisticados, e mais em como aproveitar e otimizar as oportunidades de que dispõem. Países como China e Coreia do Sul parecem já ter percebido a relevância da agenda de comércio de serviços para o desenvolvimento e, por isso, estão dando grande ênfase a esse tema.

 

Mas existem muitas oportunidades em outras áreas, além daquelas identificadas acima. A emergência da economia digital e do e-commerce, mudanças nas preferências dos consumidores em favor de serviços e produtos com alto conteúdo de serviços, o envelhecimento da população, mudanças nas tecnologias de gestão e de produção, e o surgimento de novos modelos de negócios – tudo isso está criando uma enorme agenda de oportunidades em serviços para países emergentes que podem e devem ser aproveitadas.

 

Por fim, associar exportações de serviços a uma agenda mais ampla de desenvolvimento econômico deve ser visto como um caminho promissor para que os países promovam crescimento econômico mais sustentável e sustentado.

 

* Jorge Arbache é professor de Economia da Universidade de Brasília e Secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento.




[1] As opiniões aqui expressas não necessariamente representam as opiniões das instituições às quais o autor está ligado.

[2] Ver: Arbache, Jorge. The contribution of services to manufacturing competitiveness in Brazil. In: Hernández, René A.; Hualde, Alfredo; Mulder, Nanno; Sauvé, Pierre (eds.). Innovation and internationalization of Latin American services. Santiago: Colegio de la Frontera Norte, 2016, pp. 65-98. Available at: <http://bit.ly/2mlthF0>.

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7 Março 2017
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