O Brasil e a nova geografia da inovação

9 Abril 2012

Embora os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) ainda se concentrem nos países desenvolvidos (PDs), as economias emergentes têm aumentado, desde a década de 1990, sua participação no setor de inovação. Este artigo apresenta uma caracterização geral desse processo – ainda incipiente –, com ênfase na experiência brasileira. A análise busca identificar as vantagens comparativas e os desafios que se colocam ao Brasil, a fim de situar o país na (nova) geografia da inovação.

Com atraso, a globalização das atividades de P&D do setor privado ensaia seguir o caminho da globalização da produção. Os investimentos das empresas multinacionais (EMNs) em P&D em países emergentes aumentaram significativamente desde a década de 1990 e aceleraram na última década. Esse fenômeno – ainda novo – está associado a fatores complexos como aquisições e fusões, aumento do comércio, emergência das cadeias mundiais de produção e serviços, produção científica nos países emergentes, melhoria da governança e da proteção à propriedade intelectual e o surgimento de novos padrões de consumo na base da pirâmide.

Embora as atividades mais sofisticadas de P&D ainda se concentrem nos países de origem das EMNs – notadamente Estados Unidos da América (EUA), Europa e Japão –, há evidências de que os países emergentes começam a participar de forma mais efetiva e determinante das atividades de P&D das EMNs, indo além das atividades de rotina de adaptação de processos, testes e integração de produtos.

Os casos da China e Índia são representativos: em 2001, o número de centros de P&D das EMNs na China era de cerca de 100; em 2008, esse número já havia passado de 1100. Na Índia, a história não foi muito diferente, exceto pelo enfoque nos serviços em lugar da indústria. O processo em direção à China foi motivado, nos últimos 15 anos, pela transformação do país no centro manufatureiro mundial e pelo crescimento do mercado local. No caso da Índia, o motivo principal foi a disponibilidade de recursos humanos qualificados a baixo custo.

Ainda não se sabe se e como esse processo – que ainda está se desenvolvendo – afetará de forma significativa a geografia internacional da inovação e a economia dos países maduros e emergentes. Uma nota de cautela é que, na China, mesmo nos setores high-tech, as EMNs têm um gasto médio em P&D como porcentagem do valor adicionado inferior ao das empresas low-tech nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No entanto, é razoável supor que esse processo é irreversível devido ao aumento da contribuição das economias emergentes para o crescimento da economia mundial, crescente investimento desses países em ciência e tecnologia, crescente internacionalização das empresas dos países emergentes, retorno de pessoas altamente qualificadas a seus países de origem, além da incipiente, mas crescente imigração de estrangeiros bem treinados para os países emergentes.

Como o Brasil se insere nesse movimento? Para responder a essa questão, utilizamos uma pesquisa realizada recentemente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela OCDE, com uma amostra de EMNs que figuram entre as grandes inovadoras a nível mundial e que desenvolvem atividades expressivas no Brasil. Nos últimos anos, o Brasil recebeu vários centros de P&D de EMNs, incluindo empresas de grande protagonismo mundial em inovação. Embora alguns desses centros ainda se encontrem em fase de instalação, já é possível apontar algumas tendências.

Primeiramente, boa parte dos laboratórios de P&D que se instalaram ou estão em fase de instalação no Brasil estão direta ou indiretamente associados a recursos naturais, incluindo energia, minerais, agricultura e biodiversidade. Segundo, os centros de P&D recém-chegados tendem a ser mais independentes e a apresentarem uma agenda de trabalho mais ambiciosa que a dos centros mais antigos. É provável que alguns desses novos centros de P&D se tornem referência mundial em suas áreas de especialidade. Terceiro, as principais motivações para a instalação dos centros de P&D são o crescimento do mercado doméstico e regional, a diversidade cultural, oportunidades de negócios em novas áreas – que, muitas vezes, envolvem grandes desafios específicos, estabilidade política e a qualidade dos pesquisadores. Quarto, a política de ciência e tecnologia e a política industrial têm influenciado a decisão das EMNs de desenvolver atividades de P&D no país.

No que diz respeito aos desafios para o desenvolvimento de atividades de P&D no país, estão entre os principais pontos identificados: o elevado custo da folha de salário dos pesquisadores – muitas vezes, maior que seus parceiros nos PDs; as elevadas despesas com imóveis, taxas e impostos; a complexa e custosa regulação setorial; a escassez de recursos humanos; e problemas de coordenação das políticas. Apesar dos entraves, boa parte das EMNs na amostra planeja ampliar as atividades de P&D no Brasil.

É interessante notar as distinções entre as atividades de P&D das EMNs no Brasil e em outros países emergentes. De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as empresas brasileiras investem apenas modestamente em inovação quando comparadas às EMNs – quadro contrastante com a China, onde as empresas nacionais são mais ativas em P&D que as EMNs. Enquanto a disponibilidade e o baixo custo dos pesquisadores foi um dos fatores de atração das atividades de P&D para a China e Índia, esse é um fator limitador no Brasil. Por outro lado, o surgimento de novas oportunidades de negócios (notadamente na área de recursos naturais), a diversidade cultural e social e a estabilidade política e social contribuem para atrair atividades de P&D para o Brasil. Já o crescente mercado interno é o principal fator atrativo em comum aos dois países.

Embora ainda haja um longo caminho a percorrer e muito dever de casa para fazer, parece inevitável que os países emergentes desempenhem um papel crescente em P&D, o que deverá levar – cedo ou tarde – a uma nova geografia da inovação. Os efeitos desse movimento serão substanciais, já que terão grandes impactos no comércio internacional, nos fluxos de capitais e na geração de emprego e renda, o que deverá ajudar a consolidar a tendência de uma nova geografia econômica mundial.

Para que o Brasil possa aproveitar mais e melhor das oportunidades que estão emergindo e enfrentar a concorrência intensa dos centros de P&D, será preciso adaptar continuamente as políticas e as instituições e fomentar o intercâmbio de experiências.

* Assessor da Presidência do BNDES e professor da Universidade de Brasília (UnB).
** Economista da Divisão de Investimentos da OCDE.
*** Assessor da Presidência do BNDES.

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