A carne fraca no Brasil

18 Julho 2017

Escrever em julho sobre a crise da “Carne Fraca”, que ocorreu em março de 2017, exige separar o “joio do trigo” e atualizar os eventos, uma vez que milhões de brasileiros foram subitamente transformados em supostos “especialistas” em carnes. Não bastassem os profissionais do setor em questão se pronunciarem em redes sociais – em especial no Facebook –, a grande mídia brasileira também arriscou seus palpites, e a confusão sobre o tema foi generalizada mundo afora.

 

Em 14 de março de 2017, quando a polícia federal tornou públicos casos de corrupção de agentes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), um escândalo relacionado à cadeia de carne bovina adquiriu repercussão mundial. A crise colocou os principais agentes públicos e privados em uma força-tarefa, ainda que individual, para tentar recuperar o considerável dano causado pelo contencioso. Segundo informações oficiais, foram constatados 20 casos de corrupção em pequenas empresas frigoríficas e em 2 multinacionais brasileiras. No entanto, a revelação da polícia federal não apresentou com clareza os casos relacionados a cada empresa. Em cerca de 24 horas, esse contencioso levou dez países – inclusive a China, um dos maiores compradores da carne do Brasil – a suspenderem suas importações.

 

Tanto os esclarecimentos oficiais sobre a crise da “Carne Fraca” quanto as respostas das associações tiveram conotação mais política do que técnica, se considerarmos que as investigações ainda estavam (e ainda estão) em curso. Somente após muitos dias, a mídia brasileira veiculou informações adicionais mais precisas a respeito do tema – por exemplo, a mobilização simultânea de 1.100 policiais federais nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás, com o objetivo de apurar os casos.

 

A acusação deve-se ao pagamento de propina por executivos de empresas privadas para agentes públicos ligados ao MAPA. Os agentes que deveriam fiscalizar a qualidade das carnes atuavam para facilitar a exportação e produção de alimentos inapropriados ao consumo, emitindo certificados sanitários sem qualquer fiscalização efetiva. Entre as irregularidades apresentadas, estão: reembalagem de produtos vencidos, excesso de água, inobservância de temperatura adequada de câmaras frigoríficas, exportação sem fiscalização in loco evenda de carne imprópria ao consumo humano.

 

A imagem da cadeia produtiva do setor no Brasil foi consideravelmente comprometida. Mesmo pouco informados sobre os acontecimentos, os consumidores brasileiros apresentaram denúncias via redes sociais e promoveram campanhas de boicote à carne comercializada pelas empresas JBS e BRF. Segundo estudo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a crise da “Carne Fraca” prejudicou a imagem de marca dessas empresas em função da perda de credibilidade e da falta de habilidade de comunicação por parte dessas empresas quando as denúncias foram deflagradas.

 

O MAPA e a Presidência da República empreenderam esforços para assegurar aos parceiros comerciais a observância dos padrões de saúde animal e saúde pública no Brasil, buscando conferir credibilidade aos produtos brasileiros no exterior, bem como ao mercado doméstico. O argumento apresentado pelo governo era que o problema se restringia a 22 plantas em um total de 4.850 processadores existentes. Mesmo assim, o Brasil ainda luta para recuperar a credibilidade perante países que mantêm restrições à importação do produto. Ao menos 51 países, além da União Europeia (UE), dificultam a entrada da nossa carne e 9 ainda bloqueiam por completo tal acesso.

 

Diante desse quadro, cabe analisar os impactos dessa crise sobre o setor de proteína animal. Em 2016, o consumo interno de carne correspondeu a 7,6 milhões de toneladas, que representam 36,8 quilos per capita de carne bovina – o quarto maior volume de consumo do mundo. Ainda, o Brasil ocupa a segunda posição entre os maiores produtores de carne bovina (9,3 milhões de toneladas), perdendo apenas para os Estados Unidos, cuja produção é de 11,5 milhões de toneladas. Em relação à carne de frango, o Brasil produziu 13,6 milhões de toneladas em 2016, sendo que o mercado interno consome aproximadamente 70% da produção.

 

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), o Brasil também lidera as exportações de carne bovina, ao totalizar 4,1 milhões de toneladas em 2016 – à frente dos Estados Unidos, que exportou 2,9 milhões de toneladas nesse mesmo ano, e da UE, cujas vendas a mercados no exterior totalizaram 1,2 milhão de toneladas em 2016. A conquista brasileira deve-se não apenas aos crescentes volumes de exportação desde os anos 1990, mas à diversificação de mercados. Hoje, mais de 160 países são abastecidos por carnes brasileiras.

 

Vale assinalar que os embargos e restrições impostos por parceiros do Brasil fazem parte da agenda de trabalho da ABIEC e da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), cujo objetivo é manter e abrir novos mercados para a exportação de carne bovina, suína e de frango. Exemplos de situações já vivenciadas por tais Associações incluem as cotas de exportação para a UE e seus requisitos de comércio, que protegem seus produtores internos (com destaque para França, Alemanha e Irlanda), e barreiras não tarifárias, que se apresentam em forma de exigências sanitárias.

 

Recentemente, destacam-se dois casos de abertura de mercado. O primeiro deles, de carne bovina in natura para a China, mercado que estava fechado desde 2011 e foi reaberto em 2015. No segundo caso, o mesmo produto obteve acesso ao mercado estadunidense em 2016, mas as importações foram novamente suspensas em 22 de junho de 2017, quando as autoridades competentes dos Estados Unidos identificaram inúmeros lotes de carne in natura com problemas sanitários (por exemplo, abscesso decorrente das vacinas de febre aftosa).

 

Apesar dos esforços do setor privado e do governo, a crise da “Carne Fraca” causou um dano considerável à marca Brazilian Beef, que sofreu queda de 40% nos volumes exportados entre os meses de março e maio de 2017, o que corresponde à redução de 150 mil toneladas exportadas. O recuo nas vendas domésticas de carne bovina já ocorria desde 2016, levando à redução do volume de abate em cerca de 20% em relação a 2015, especialmente em função da crise econômica e financeira no país. Não bastasse esse dano, em 17 de maio de 2017, a delação dos irmãos Batista do Grupo JBS, no âmbito das investigações da Operação “Lava Jato”, adicionou mais um fato negativo de impacto ainda incomensurável a todo o setor de proteína animal.

 

Esse quadro constituiu terreno fértil para concorrentes do Brasil no setor, como no caso da UE. Em carta endereçada em 7 de junho de 2017 ao ministro Blairo Maggi, o comissário europeu Vytenis Andriukaitis questiona a credibilidade das autoridades brasileiras por não terem tomado as medidas de segurança com as quais haviam se comprometido. É latente a irritação dos parceiros europeus com as promessas não cumpridas pelo Brasil. A UE já desconfia da segurança sanitária das exportações brasileiras e deve adotar medidas restritivas em direção à carne produzida no Brasil, além de banir principalmente a carne de cavalo. Isso traz à tona uma segunda questão, de ordem institucional: a reputação do Brasil no que diz respeito à capacidade de honrar seus compromissos e manter um nível de segurança sanitário.

 

A UE é uma parceira estratégica para o Brasil não apenas porque figura entre os principais importadores do agronegócio brasileiro, mas também porque constitui o mercado que melhor remunera os produtos de qualidade. Mais do que isso, o bloco europeu possui uma posição chave para o Brasil, na medida em que é considerado um paradigma regulatório mundial – em especial na área de padrões sanitários. É nesse registro que devem ser interpretados os questionamentos avançados pelo comissário europeu, talvez pressionado pelos produtores e exportadores de países membros da UE.

 

Em menos de três meses, o setor produtor de carne no Brasil enfrentou várias crises – Operação “Carne Fraca”, delação da JBS, pressão da UE e suspensão das exportações de carne bovina in natura para os Estados Unidos. Esses desdobramentos prejudicaram a reputação do Brasil e a imagem dos produtos da cadeia de proteína animal, seja no mercado doméstico ou externo. Não obstante, a contínua manipulação dos casos de corrupção no Brasil não colabora para o desenvolvimento de instituições fortes.

 

Para ilustrar nosso ponto, cabe tecer uma breve reflexão sobre os momentos que antecederam e sucederam as crises mencionadas acima. Nos últimos 17 anos, o setor cresceu exponencialmente em termos de produção, estrutura das empresas processadoras, presença no mercado internacional e exportações. A coordenação entre produção e processamento nem sempre foi algo tão presente, no entanto. Foi somente a partir de 2010 que as maiores empresas processadoras buscaram se aproximar dos produtores com o objetivo de coordená-los para atender novas demandas – o que inclui formas de apresentação e marcas para o mercado doméstico e internacional.

 

Desde os anos 1990, o crescimento da produção e da exportação, a coordenação entre produtores e processadores e o trabalho institucional e das associações permitiram a gradual construção e consolidação da reputação das empresas brasileiras do setor. O ambiente institucional e político, bem como a estabilidade financeira, cooperava para a atração de investidores ao Brasil, reforçando a imagem de um país em franco crescimento. Nesse contexto, a carne bovina brasileira consolidava sua presença no mercado mundial, e as empresas de processamento expandiram suas atividades em outros países em meados dos anos 2000. Esse era o promissor cenário do setor até março de 2017.

 

É possível afirmar que todas as crises enfrentadas pelo Brasil apresentam um caráter institucional, com consequências que abrangem a perda de poder de compra do consumidor e a credibilidade das empresas envolvidas nos escândalos de corrupção. As primeiras evidências, decorrentes da crise financeira, foram as reduções de margens das indústrias processadoras, a redução do consumo de carne e do volume de abate. Como resultado, os programas de bonificação aos pecuaristas foram suspensos em finais de 2016 – o que refletiu na imagem das marcas e na desestruturação da coordenação interna da cadeia junto com o produtor e a credibilidade dos programas apresentados.

 

Ao pontuar que existem deficiências encontradas em auditorias anteriores e criticar a atuação do MAPA em corrigi-las, o comissário da UE coloca em evidência a fragilidade do ambiente institucional no Brasil, o que sugere que as garantias oferecidas pelo país não estão de acordo com as exigências mínimas toleradas. Esses fatos estão diretamente relacionados à governança entre os elos que compõem o setor. Afinal, o embargo de países que remuneram melhor a cadeia em função de suas especificidades pode levar à desestruturação de dinâmicas de incentivos e ao uso de ferramentas de controle para a melhoria da produção – as quais eram utilizadas na relação pecuarista-indústria até 2016.

 

As ameaças da UE e o já mencionado embargo dos Estados Unidos à carne brasileira são exemplos de um retrocesso ao desenvolvimento da cadeia, devido ao impacto positivo que a necessidade de coordenação para vender a esses países demanda, além da reputação que se cria ao tê-los em sua carteira de clientes. Em outras palavras, o que parecia ser o início de diferentes estratégias de governança na cadeia de carne bovina passa atualmente a mensagem de ter sido somente uma ilusão. Isso não quer dizer que não existam profissionais brasileiros de altíssimo nível, engajados na criação dos programas de desenvolvimento, e pecuaristas que investem continuamente em tecnologia para melhorar a produção. Contudo, até que consigamos mudar o quadro de ações ilícitas nos âmbitos privado e público, o Brasil não será capaz de consolidar sua credibilidade e reputação para competir em mercados globalizados.

 

Apesar de termos passado por tantas crises, as autoridades competentes no Brasil ainda não compreenderam que discursos políticos não são suficientes para que os adidos agrícolas e diplomatas defendam as posições do país junto àqueles que aplicam sanções. Governo, associações e empresas falharam – e muito – por não terem articulado um “plano B” de emergência para casos de crise. Dessa forma, fica comprovada a necessidade de que as instituições brasileiras – em especial o MAPA, no setor de carnes – empreendam reformas urgentes para que o governo possa, pelo menos, reconstruir a credibilidade do Brasil e dar garantias aos parceiros comerciais do país.

 

* Fernanda Kesrouani Lemos é sócia da e-LO Consultoria e da Guaná Agropecuária, consultora associada da Stracta Consultoria e colunista da Beef World. É também professora da Fundação Instituto de Administração (FIA) nas áreas de governança corporativa e estratégia empresarial.

** Jogi Humberto Oshiai é sócio da e-LO Consultoria, diretor para Assuntos Públicos do escritório de advogados europeus “FratiniVergano”, Bruxelas (Bélgica); diretor da empresa 33 Asset Management, Haia (Holanda); e colunista da BeefWorld, PorkWorld e ChickenWorld.

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