A política externa de Trump e a Cooperação Sul-Sul: impactos e potencialidades

24 Agosto 2017

O primeiro ano do governo de Donald Trump nos Estados Unidos vem sendo caracterizado por inúmeras controvérsias e críticas, que se iniciam ainda na campanha eleitoral de 2016. Tais controvérsias e críticas descrevem sua vitória no pleito como inesperada e antissistêmica, e seus meses iniciais à frente da Casa Branca, como erráticos, impulsivos e confusos. O tema de um possível impedimento do presidente, que o impeça de completar seu mandato de quatro anos é recorrente, trazendo à tona relações impróprias de familiares e sua equipe com a Rússia e de interferência deste país nas eleições dos Estados Unidos.

 

Por sua vez, Trump responde a tais acusações e demais pressões no mesmo estilo midiático que marcou sua campanha: brigando com a mídia e fazendo uso do Twitter para chamar a atenção. No campo interno, o legado Obama é descontruído por meio de Ordens Executivas; na frente externa, tornam-se dominantes tendências de unilateralismo e militarismo, em debates acalorados com a Coreia do Norte e o México, bombardeios sobre a Síria e choques de interesse com a China.

 

As análises sobre a evolução, impactos e potenciais de sua gestão baseiam-se quase sempre em fatos conjunturais, que jogam uma cortina de fumaça sobre o real significado dessas ações e linhas políticas para o futuro dos Estados Unidos e o sistema internacional. Não se pode avaliar uma Presidência por tweets, o que favorece mais desvios de atenção sobre quais são as reais prioridades do governo dos Estados Unidos. Frente a esse contexto, o objetivo destas breves reflexões é analisar o peso do governo Trump na Cooperação Sul-Sul (CSS), a partir de uma visão estrutural e abrangente de sua agenda e dos atos iniciais de seu governo.

 

A primeira questão a dissipar é justamente a avaliação de que a candidatura Trump representa uma quebra de paradigma na política estadunidense e que foi inesperada. Até alguns dias antes da eleição, o empate técnico entre a candidata democrata Hillary Clinton e o republicano era indicado pela quase totalidade das pesquisas de opinião no país. Ou seja, havia a possibilidade de uma vitória republicana para a Casa Branca e, mais importante ainda, sinalizava-se a continuidade do controle republicano das duas casas do Legislativo, a Câmara e o Senado. Assim, Trump não era um ponto fora da curva: apenas mais um símbolo da prevalência do pensamento conservador, em suas mais diversas variantes (das radicais de Trump, do Tea Party e dos neoconservadores, até as mais moderadas do centro).

 

Essa prevalência refletiu-se em uma campanha para o Executivo e o Legislativo baseada em alguns pilares básicos: xenofobia, misoginia, nacionalismo, protecionismo, unilateralismo, militarismo e isolacionismo. Este último, porém, em termos relativos, uma vez que slogans como “Fazer a América grande de novo” e “América primeiro” não implicavam desengajamento externo, mas sim a obtenção de maiores vantagens para os Estados Unidos, que se sentiam prejudicados pela economia e política mundial. Para Trump e sua base eleitoral, a externalização da culpa pelos fracassos do país era constante, ignorando as razões pelas quais os Estados Unidos estavam “perdendo” a competição econômica mundial.

 

A síntese dessas ideias aparecia sob o signo da “antiglobalização”. O termo tornou-se corrente para representar tanto a candidatura Trump como fenômenos similares: a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e a consolidação de movimentos políticos como aqueles liderados por Marine Le Pen na França, as linhas de teor neonazista e fascista na Alemanha, a crise dos governos de esquerda e centro-esquerda na América Latina, entre outros. Paradoxalmente, o movimento “antiglobalização” globalizou-se e tornou-se interdependente.

 

Como todo candidato de teor populista, independente da embalagem, Trump levou esse discurso aos salões de governo, vencendo a eleição de forma tradicional e sistêmica nos Estados Unidos: indireta no Colégio Eleitoral, contra o voto popular. Seus primeiros atos como presidente também seguiram o mesmo roteiro populista, cumprindo promessas de campanha: retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP, sigla em inglês), tratado comercial que nem mesmo havia sido ratificado internamente; revisar leis de imigração, barrando a entrada de cidadãos oriundos de países supostamente terroristas em sua avaliação; intensificar as pressões sobre os imigrantes latinos nas fronteiras e internamente, deportando indocumentados; reforçar o muro na fronteira com o México (lembrando que a construção data de 2006 e foi mantida por Obama); retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris contra o aquecimento global e revogar medidas de proteção ambiental internas; suspender o programa de saúde democrata e projetos de direitos civis e sociais de minorias, em uma lista não exaustiva. Simultaneamente, os bombardeios aéreos à Síria, as movimentações militares contra a Coreia do Norte, a pressão sobre a China e a Rússia, a crítica ao multilateralismo e as gafes diplomáticas tornaram-se o resumo desses primeiros meses.

 

Em termos de conjuntura, todos esses atos passam a impressão de uma Presidência despreparada e destemperada. Em uma abordagem mais estrutural, tais atos apenas refletem movimentos similares àqueles de George W. Bush (2001-2008): uma mudança tática para preservação da liderança, com ênfase nos mecanismos de poder militares e no unilateralismo, contrapondo-se à lógica tradicional de primazia benevolente com credibilidade da projeção de poder dos Estados Unidos. Por esse ângulo, é possível analisar com mais clareza quais seriam os impactos de Trump para a CSS e suas potencialidades.

 

São dois os principais efeitos da desconstrução dos mecanismos de continuidade da ordem estadunidense, sustentados no multilateralismo e na cooptação de aliados: a perda de credibilidade, legitimidade e eficiência dos Estados Unidos; e o distanciamento dos demais países, que passam a buscar alternativas para sua cooperação e mesmo sua proteção diante do unilateralismo estadunidense. Os impactos são tanto positivos quanto negativos para todos – Estados Unidos e países do Sul.

 

Para os Estados Unidos, os impactos positivos incluem uma aparente expansão de poder (e a elevação e popularidade de um presidente que sustentou sua campanha em promessas de força e orgulho), no qual os aliados recuam para não sofrerem consequências militares ou político-econômicas em uma ação defensiva. No entanto, esse recuo detém, no médio e longo prazos, consequências negativas: as já citadas perdas de credibilidade, legitimidade e eficiência, pelo esvaziamento dos instrumentos de gerenciamento da governança global e cooptação pela via multilateral (e mesmo parcerias bilaterais com menores tendências assimétricas).

 

Para os países do Sul, as dinâmicas negativas e positivas refletem dois lados de uma mesma moeda. O travamento do multilateralismo e o unilateralismo militarista prejudicam o atual sistema de negociações em organismos como as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o G20 financeiro, além de gerarem instabilidade. Tal efeito também deriva de manifestações de força periódicas como aquelas observadas na Coreia do Norte e na Síria, e em guerras de posição em regiões estratégicas como o Pacífico e o Atlântico Sul.  

 

Contudo, esse fechamento de espaços é positivo, pois impulsiona a formação de coalizões de geometria variável entre as nações do Sul, dentro e fora desses arranjos multilaterais. O impulsionamento da CSS em W. Bush com a institucionalização do BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), do IBAS (Índia, Brasil e África do Sul), do G20 financeiro e da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), bem como a criação do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD) e do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) já na gestão Obama são representativos das potencialidades existentes nessas parcerias. O vácuo estadunidense deu oportunidade para a primeira grande reestruturação dos sistemas políticos e econômicos do segundo pós-guerra, capitaneados por nações do Sul.

 

Na ausência de reformas dos mecanismos tradicionais, essa reestruturação provou ser possível, além de desejável, ampliando a apresentação de alternativas de desenvolvimento global. Com suas potencialidades e também eventuais deficiências, a CSS é e tem sido capaz de promover ajustes na ordem internacional e no equilíbrio de poder mundial inéditos por meio de projetos de cooperação multidimensionais. Existem modelos diferentes de desenvolvimento e justiça social que se encontram em choque, como parte dos ajustes de posição entre o Norte e o Sul.

 

Trump, no fundo, reage a essas mudanças estruturais, assim como Obama antes dele, só que com menos eficiência. Enquanto Obama optou por reforçar cooptação e ingerências (políticas e militares, mas sob o discurso cooperativo e proativo do multilateralismo), Trump, como W. Bush, apela a ações ineficientes para lidar com as alianças alternativas do Sul. Ao contrário do que parece, a capacidade dos países do Sul em reforçar suas iniciativas de cooperação é fortalecida por governos como o de Trump nos Estados Unidos, pois compele tanto a estratégias defensivas quanto ofensivas de parte dessas nações nos espaços gerados pelo vácuo de poder estadunidense.

 

Esse vácuo tem mais um componente ainda não mencionado: a não identificação da agenda dos Estados Unidos com grande parte das demandas político-sociais e econômicas da população mundial para progressos no campo dos direitos humanos, do meio ambiente e do desenvolvimento. Basta lembrar que, pelo voto popular, Trump perdeu as eleições por cerca de 3 milhões de votos, e muitos candidatos de agenda de direita radical sequer estão sendo eleitos para cargos executivos mundialmente (apesar de avanços no Legislativo). Portanto, é uma agenda capaz de ser barrada pelos meios democráticos e com informações claras, justas e transparentes dos movimentos populares.

 

Contudo, existem pontos de estrangulamento nas potencialidades da CSS contemporânea. A conjuntura das nações do Sul é diferente daquela observada na primeira metade do século XXI, quando prevalecia a agenda progressista na maioria dos países. A “sorte” de Trump – e o “azar” da CSS – é que algumas regiões como a América Latina oscilam entre pautas de autonomia e dependência, reflexos de suas contradições internas. Em resposta a mudanças estruturais em andamento derivadas da pauta progressista, disputas político-sociais são acirradas internamente, provocando alterações no ciclo de poder e instabilidade. Do BRICS, “BR” encontram-se em situações de recuo e crise, enquanto os “ICS” parecem manter seu curso. No entanto, o avanço do BRICS foi colocado em xeque, e a China por vezes parece assumir uma posição relativamente mais avançada que outras nações similares. Será essa ação chinesa suficiente para manter a CSS ativa? Ou pelo menos estabilizá-la? Ou mudará sua natureza, polarizando o sistema internacional no G2 Estados Unidos-China?

 

Ainda, cabe mencionar que Trump tem “sorte” também no eixo Norte de poder, com a fragmentação relativa da UE, que impede sua consolidação como um bloco autônomo e alternativo ao poder estadunidense. A Alemanha, um dos poucos países que poderia ter condições para propor uma ordem alternativa, encontra-se pressionada pela crise dos refugiados e em disputas políticas internas que podem limitar sua capacidade propositiva e, no extremo, levar a uma mudança de poder em caso de derrota da chanceler Angela Merkel nas eleições futuras. Trump parece beneficiar-se mais dessas cisões do que essencialmente de seus méritos e escolhas táticas que representam uma tendência já presente na história da política externa dos Estados Unidos, e não uma exceção como se procurou desenhar.

 

Como tais questões serão encaminhadas ainda está em aberto, mas é preciso lembrar que os impactos da Presidência Trump na CSS constituem apenas um dos fatores que podem limitar ou fortalecer seus potenciais. Da mesma forma, estes dizem respeito à agenda e aos interesses internos e externos das nações que a compõem – que, no momento, se mostram menos homogêneos e convergentes do que há alguns anos.

 

* Cristina Soreanu Pecequilo é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), do Programa San Tiago Dantas e da PUC/SP. Pesquisadora CNPq e NERINT/UFRGS.

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