As críticas de Donald Trump ao NAFTA têm fundamento?

18 Outubro 2016

Com frequência, os efeitos negativos da abertura das fronteiras e do comércio bilateral entre Estados Unidos e México constituem o tema central dos discursos de Donald Trump, candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos. Para ele, o livre comércio, tal como tem sido praticado, não beneficia os Estados Unidos. O Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, sigla em inglês) é, segundo Trump, "um desastre" que precisa ser renegociado. No Canadá, essa oposição ao livre comércio encontra certo eco entre especialistas e grupos de pressão. A verdade, porém, é que esse Acordo gerou efeitos positivos para os três países envolvidos.

 

Os efeitos do NAFTA

 

A liberalização do comércio traz benefícios duradouros ao custo de alguns inconvenientes no curto prazo. Trata-se de uma visão presente em qualquer análise econômica. De fato, existe um forte consenso entre os economistas quanto às virtudes do livre comércio. Em pesquisa realizada entre os membros da Associação Americana de Economia, a associação mais prestigiada de economistas acadêmicos no mundo, 95%, 94% e 95% dos entrevistados em, respectivamente, 1990, 2000 e 2011, argumentaram que o protecionismo reduz o bem-estar econômico.

 

Em resposta a essa visão, muitos especialistas chamam a atenção para o fato de que “A economia não é uma ciência”. Outros mais bem-humorados comentam que, se pedirmos a opinião de três economistas sobre um assunto, teremos três respostas diferentes. A essa anedota, os próprios economistas acrescentam que, se um dos três economistas questionados for Keynes, teríamos então cinco opiniões diferentes.

 

Embora ainda existam debates sobre as principais questões técnicas, assim como ocorre na medicina ou na física, os economistas concordam amplamente sobre uma série de questões fundamentais. A visão quanto aos benefícios do livre comércio é um exemplo disso.

 

O livre comércio aumenta o bem-estar nos países devido à queda nos preços e aos ganhos de eficiência. No entanto, parte inevitável desse processo é a perda, em um momento inicial, de determinados postos de trabalho em empresas menos eficientes, que estejam produzindo a preços mais elevados que seus novos concorrentes.

 

Esses efeitos foram observados após a entrada em vigor do NAFTA, em janeiro de 1994. A produtividade do trabalho aumentou em toda a América do Norte. No Canadá, o aumento foi de cerca de 14% – um salto enorme, sugerindo que as empresas menos eficientes fecharam, enquanto as demais experimentaram um crescimento, tornaram-se mais inovadoras e cada vez mais dotadas de tecnologias avançadas[1].

 

Entre 1993 e 2011, as reduções de tarifas aduaneiras levaram a um aumento no comércio com os outros membros do NAFTA: 11%, no caso do Canadá; 41%, nos Estados Unidos; e 118% no México[2]. Em termos de valor, o comércio estadunidense com Canadá e México aumentou de US$ 481 bilhões em 1993 para US$ 1,1 trilhão em 2015[3]. Embora Donald Trump afirme que os Estados Unidos “não fabricam mais nada” e culpe o NAFTA por isso, o setor manufatureiro estadunidense aumentou sua produção em 58% desde que o acordo entrou em vigor[4].

 

Praticamente todos os 51 eminentes economistas acadêmicos pesquisados como parte do Painel de Especialistas em Economia da Iniciativa sobre Mercados Globais (IGM, sigla em inglês) acreditam que o NAFTA tenha sido benéfico para os cidadãos estadunidenses. Nenhum deles sustenta o contrário.

 

Não há dúvidas de que, como Donald Trump gosta de repetir, existem bem menos empregos no setor manufatureiro dos Estados Unidos do que existia antes da entrada em vigor do NAFTA – 29% menos, para ser mais preciso[5]. No entanto, essa mudança se deve principalmente a inovações técnicas que aumentam a produtividade e permitem a melhoria no padrão de vida.

 

Dez anos após a entrada em vigor do NAFTA, a abertura das fronteiras, por si só, resultou em um aumento de 0,32% e 0,11%, respectivamente, nos salários reais das empresas no Canadá e nos Estados Unidos. O NAFTA levou à criação de postos de trabalho nas indústrias exportadoras, as quais pagam salários de 15% a 20% maiores que a média de indústrias que se concentram na produção doméstica[6].

 

Contudo, esses dados não capturam todos os impactos do livre comércio. Um desses efeitos importantes, que beneficiou a todos, é que a produção entre os países está agora mais integrada graças a uma divisão mais profunda do trabalho. Em muitos casos de integração, as importações estimulam a produção doméstica ao invés de substitui-la. Cerca de 25% das importações estadunidenses provenientes do Canadá correspondem a produtos de design estadunidense ou que foram montados ou processados no Canadá, e depois reimportados pelos Estados Unidos. No caso das importações estadunidenses provenientes do México, esse número sobe para 40%[7].

 

Outro efeito positivo da liberalização do comércio é o efeito sobre a economia mexicana, muitas vezes esquecido nesses debates. O México é um país cuja economia, há muito tempo, enfrenta uma série de desafios estruturais. No entanto, o NAFTA reduziu pela metade o preço de muitos bens de consumo em apenas alguns anos – o que ajudou a melhorar as condições de vida ainda precárias de muitos mexicanos. Em 2004, o Banco Mundial estimou que o NAFTA havia removido 3 milhões de mexicanos da linha da pobreza[8].

 

Outro benefício do livre comércio desaparecerá caso Donald Trump seja eleito e decida renegociar o NAFTA e outros acordos comerciais: o livre comércio ajuda o meio ambiente. Primeiramente, o livre comércio muda o local onde os bens são produzidos. Os produtores se movem para lugares onde a produção é mais eficiente e, nesse processo, muitos desses locais são beneficiados em termos ambientais.

 

Considere o caso da agricultura. O livre comércio garante que o alimento seja produzido de forma tão eficiente quanto possível nos lugares mais apropriados. Um estudo recente concluiu que cerca de 20% das melhorias em produtividade na agricultura decorreram da mudança para locais mais apropriados[9]. Como o livre comércio libera a terra que está sendo explorada de forma improdutiva, existe um forte benefício ambiental em termos de reflorestamento. Ainda, o transporte por barco de enormes quantidades de alimentos exige muito menos energia por tonelada do que o transporte de alimentos por trem ou caminhão – o que pode significar menos emissões por tonelada de alimentos.

 

Ademais, o livre comércio aumenta a disponibilidade de produtos “amigos do meio ambiente” ao reduzir o preço destes. Com isso, os indivíduos podem aumentar o consumo de tais bens, e as empresas podem adotar técnicas de produção que fazem uso desses produtos.

 

Um exemplo emblemático é o mercado de carros usados. Uma vez que grande parte da poluição associada aos automóveis é emitida durante a produção industrial, o aumento da vida útil de um carro reduz a emissão total de poluentes. O comércio transfronteiriço de automóveis usados tende a ser altamente restritivo, de modo que mesmo uma liberalização modesta resultaria em aumentos significativos no volume de comércio desse produto e, por conseguinte, em benefícios ambientais substanciais[10].

 

Em 2005, as restrições ao comércio de veículos usados ​​entre México e Estados Unidos foram eliminadas. Como consequência disso, 2,5 milhões de veículos foram importados pelo México. Como os carros importados eram mais limpos do que aqueles existentes no México, o livre comércio de automóveis usados reduziu a poluição no país. Além disso, os carros vendidos para o México eram mais “sujos” do que o estoque existente de veículos nos Estados Unidos. Isso significa que os cidadãos estadunidenses estavam vendendo seus automóveis usados ao México e comprando carros mais eficientes em termos de consumo de combustível, reduzindo, assim, a emissão de gases de efeito estufa. Basicamente, o livre comércio de carros usados ​reduziu as emissões por milha em ambos os países.

 

A maneira com que ocorre a liberalização do comércio é crucial para determinar a extensão dos efeitos positivos. No entanto, muitos estudos apontam para benefícios ambientais significativos em decorrência do livre comércio, com poucos sinais de efeitos prejudiciais. Em suma, o livre comércio é bom para o meio ambiente, bem como para o padrão de vida das pessoas.

 

Todavia, esses inúmeros benefícios não impediram a emergência de discursos exagerados com relação aos efeitos negativos do NAFTA. Já em 1998, quatro anos após a assinatura desse acordo, críticos canadenses afirmavam que o NAFTA ameaçava a soberania do país. Essa visão do NAFTA como algo ameaçador – que também está presente nas recentes declarações de Donald Trump – nunca se materializou.

 

O livre comércio possui efeitos indiscutivelmente positivos sobre a economia e o meio ambiente. Se Donald Trump quer negociar “um acordo melhor” para os Estados Unidos, isso deve significar um acordo comercial ainda mais liberalizante. Os eleitores estadunidenses devem ter isso em mente quando ouvirem Donald Trump criticando o livre comércio.

 

* Mathieu Bédard é economista do Instituto de Economia Montreal.




[1] Ver: Hufbauer, Gary Clyde; Schott, Jeffrey J. NAFTA Revisited: Achievements and Challenges. Washington, D.C.: Peterson Institute for International Economics, 2005, pp. 61-62. Ver também: Trefler, Daniel. The Long and Short of the Canada-U.S. Free Trade Agreement. In: The American Economic Review, vol. 94, n. 04, 2004, pp. 870-895.

[2] Ver: Caliendo, Lorenzo; Parro, Fernando. Estimates of the Trade and Welfare Effects of NAFTA. In: Review of Economic Studies, vol. 82, n. 01, 2015, p. 3, p. 27.

[3] Ver: Departamento de Censo dos Estados Unidos. Comércio de Bens com o Canadá. Comércio de Bens com o México.

[4] Disponível em: <http://bit.ly/2dcvYnm>.

[5] Disponível em: <http://bit.ly/2bzyghL>.

[6] Ver: Hills, Carla A. NAFTA’s Economic Upsides. In: Foreign Affairs, 6 dez. 2013.

[7] Ver: Koopman, Robert et al. Give Credit Where Credit Is Due: Tracing Value Added in Global Production Chains. In: NBER Working Paper Series, n. 16426, 2010, p. 7 (Appendix).

[8] Ver: Nicita, Alessandro. Who Benefited from Trade Liberalization in Mexico? Measuring the Effects on Household Welfare. In: Pesquisa Política do Banco Mundial Working Paper, n. 3265, abr. 2004, p. 30, p. 47.

[9] Ver: Beddow, Jason M.; Pardey, Philip G. Moving Matters: The Effect of Location on Crop Production. In: The Journal of Economic History, vol. 75, n. 1, mar. 2015, pp. 219-249.

[10] Ver: Clerides, Sofronis. Gains from Trade in Used Goods: Evidence from Automobiles. In: Journal of International Economics, vol. 76, n. 2, dez. 2008, pp. 322-336.

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