Commoditização digital e desenvolvimento econômico

14 Março 2018

A era digital está transformando tudo: a natureza dos mercados e produtos, como produzir, como entregar e pagar, a escala de capital para operar globalmente e os requisitos de capital humano. A era digital também está promovendo a produtividade, expondo as empresas a novas ideias, tecnologias, gestão e práticas operacionais e criando novos canais de acesso a mercado. E tudo isso a custos relativamente baixos. Não é exagero prever que as empresas dependerão cada vez mais da inteligência artificial para rotinas básicas e também para tarefas mais complexas. Em breve, versões avançadas de assistentes virtuais como Siris e Alexas farão parte de nosso dia-a-dia no trabalho, na escola, no lar e no lazer.

 

Embora a disseminação e a popularização da era digital sejam potencialmente valiosas para a produtividade e para a criação de riquezas, é necessário levar em consideração os seus limites em razão da “commoditização digital”. Esta refere-se ao impacto que a popularização do acesso e do uso de tecnologias digitais padronizadas e de propósito geral têm sobre a competitividade e a produtividade.

 

Parece razoável supor que o impacto da adoção de uma nova tecnologia digital na competitividade segue um caminho semelhante ao descrito na Figura 1. Enquanto poucas empresas de determinada indústria têm acesso a uma nova tecnologia, o seu impacto na competitividade aumentará rapidamente. No entanto, se o acesso e o uso daquela tecnologia são popularizados para além de um ponto ótimo (A) de viabilização econômica, então o benefício da tecnologia seguirá crescendo, mas a taxas decrescentes até que, eventualmente, o seu impacto na competitividade se tornará insignificante. A popularização da tecnologia faz com que esta seja cada vez mais um requisito de entrada no mercado, e não mais uma vantagem competitiva. Ou seja, a nova tecnologia passa a ser requisito para colocar a empresa na competição, mas não garante que ela vencerá a competição.

 

 

Pense no choque de produtividade que os computadores pessoais (PC, sigla em inglês) tiveram em meados da década de 1980 em atividades simples como edição de texto, controle de inventário e gerenciamento de contabilidade. No início, o acesso aos PCs estava limitado a poucas empresas devido ao custo das máquinas e limitações das pessoas para operarem computadores e softwares. As empresas e universidades que tiveram acesso aos PCs naquela altura provavelmente experimentaram melhorias de indicadores de desempenho. No entanto, ao longo do tempo, o uso de PCs e softwares em atividades básicas e mesmo mais complexas passou a fazer menos diferença, já que tais recursos se tornaram uma espécie de commodity.

 

Equipamentos de tecnologia da informação em geral, softwares padronizados de finalidades diversas e aplicativos na web também estão sujeitos à commoditização digital. O crescente acesso à Internet e os efeitos-rede e plataforma estão acelerando os tempos da commoditização digital e ampliando o seu escopo.

 

Mas o alcance da commoditização digital vai muito além do ambiente majoritariamente virtual. A Indústria 4.0 e outras novas tecnologias de gestão e fabricação baseadas na “Internet das Coisas”, big data, inteligência artificial, machine learning, robótica, para citar apenas alguns casos, também se enquadram na lógica da commoditização digital. Isso ocorre porque, assim como nas plataformas digitais, os seus desenvolvedores visam à popularização daquelas tecnologias tanto quanto possível – inclusive com menores margens de lucro. Afinal, quanto mais populares, maior o efeito-rede e, assim, o número de usuários das plataformas tecnológicas de produção. Diferentemente do que muitos pensam, a Indústria 4.0 não será uma panaceia competitiva para os seus usuários. Ao contrário: ela se tornará uma commodity tecnológica de um sofisticado modelo de negócios. É só uma questão de tempo.

 

A commoditização digital está fazendo com que custos baixos de produção se tornem fatores cada vez menos relevantes para ser competitivo no plano internacional. O crescente aumento do componente intangível no valor final dos bens e a banalização do acesso a tecnologias digitais e bens de capital avançados estão transformando radicalmente a forma como entendemos a produção e a distribuição da riqueza em nível global e mesmo a noção convencional de escassez de capital e de acesso a tecnologias. De fato, a brutal queda no preço dos robôs é uma das manifestações desse movimento. Mão-de-obra farta e barata, incentivos fiscais e outras formas convencionais de atração de investimentos para países em desenvolvimento requerem, portanto, revisão.

 

A commoditização digital ajuda a explicar o paradoxo da desaceleração da taxa de crescimento da produtividade em pleno ambiente de popularização das tecnologias da informação e de queda nos preços relativos dos bens de capitais. Esta pode ser uma das chaves para compreendermos a estagnação secular[1].

 

Nesse novo contexto global, é importante distinguir uso de desenvolvimento, distribuição e gestão das tecnologias digitais. Enquanto, de um lado, a grande maioria das empresas são apenas usuárias de commodities digitais, de outro lado, uma parte muito menor das empresas se enquadra na categoria de desenvolvedoras, distribuidoras e gestoras daquelas tecnologias e, por esse motivo, são definidoras dos padrões regulatórios e das plataformas em que as commodities digitais são operadas e empregadas.

 

Pense na Google, Amazon, Apple, Microsoft, Facebook, Baidu, Alibaba, SAP, PayPal, AT&T, Uber, Tencent, Cisco, Oracle, Huawei, Siemens, Bosch e outras empresas que desenvolvem dispositivos e plataformas digitais nas quais terceiras empresas operam a partir de padrões pré-definidos. O encurtamento dos ciclos de vida das tecnologias juntamente com os efeitos-rede e plataforma estão estabelecendo condições de concorrência altamente assimétricas, que garantem vantagens competitivas para as “superestrelas”, o que as mantêm bem à frente do rebanho de usuários de commodities digitais.

 

Aquelas empresas estão em condições de capturarem parte significativa e crescente dos benefícios privados das commodities digitais com poucas possibilidades de serem desafiadas. Esta seria, inclusive, uma das explicações da perda do brilho dos “unicórnios”, start-ups que chegaram a valer cerca de US$ 1 bilhão e que têm sido esmagadas ou adquiridas pelas superestrelas.

 

Consequentemente, estamos testemunhando uma crescente divisão na economia global entre aqueles que usam e aqueles que desenvolvem, distribuem e gerenciam tecnologias e padrões digitais. O primeiro grupo é composto por países emergentes e em desenvolvimento e mesmo por alguns países de renda alta. O segundo grupo é composto por alguns países avançados, como Alemanha, Estados Unidos e Japão, e pela China.

 

A commoditização digital sugere que as tecnologias digitais não elevarão a competitividade internacional dos países emergentes – o que possui implicações significativas para as políticas de desenvolvimento. Os esforços que muitos países emergentes estão fazendo para mobilizar recursos para expandir redes e velocidade da Internet, treinar pessoal, adquirir softwares e computadores para escolas e universidades, reduzir impostos de importação de equipamentos e softwares informáticos e financiar a importação de bens de capitais sofisticados são bem-vindos, mas não reduzirão o hiato tecnológico e de renda entre os dois grupos de países.

 

Muito além da disseminação das commodities digitais e de novas tecnologias produtivas, as políticas públicas terão que gestar uma agenda de inovação digital e de desenvolvimento tecnológico muito mais ambiciosa e sofisticada se os formuladores de políticas quiserem melhorar as perspectivas de convergência de renda e de aumento da prosperidade.

 

Com fins de alterar aquele destino, será crucial distinguir uso de desenvolvimento, gerenciamento e distribuição de tecnologias. E agir. Afinal, está cada vez mais claro que, no século XXI, a fonte primária da geração de emprego e riqueza está na capacidade de criar conhecimento e outras riquezas intangíveis e de “embuti-los” em bens industriais, agrícolas, minerais e mesmo em terceiros serviços, bem como de desenvolver e gerenciar plataformas digitais e tecnológicas em nível global.

 

A tarefa não será fácil, pois requer o desenvolvimento e a implementação de toda uma nova geração de políticas públicas e privadas que mirem o conhecimento e a economia digital como as molas propulsoras do crescimento.

 

* Jorge Arbache é professor de Economia na Universidade de Brasília e secretário de Assuntos Internacionais do Ministério de Planejamento, Desenvolvimento e Gestão do Brasil.




[1] Ver: Teulings, Coen; Baldwin, Richard, Secular Stagnation: Facts, Causes and Cures. Disponível em: <http://bit.ly/2z7KgEq>.

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