Eleições nos Estados Unidos: momento para o México revisar suas relações comerciais?

18 Outubro 2016

A economia mexicana é uma das mais diversificadas do mundo. Ao aderir, em 1986, ao Acordo Geral de Tarifas Aduaneiras e Comércio (GATT, sigla em inglês), o México deu início a um ambicioso processo de abertura do mercado interno. Na década seguinte, o México assinou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, sigla em inglês).  

 

Embora caracterizado por um alto grau de abertura ao intercâmbio internacional, o México depende consideravelmente de um único parceiro. A forte influência exercida pelos Estados Unidos não resulta apenas da assinatura do NAFTA. De fato, tanto a proximidade geográfica quanto o desenvolvimento de complementaridades ao longo dos anos ajudam a explicar a forte ligação entre as economias estadunidense e mexicana.

 

Nos parágrafos a seguir, apresento uma série de reflexões sobre os possíveis efeitos que as eleições presidenciais nos Estados Unidos podem trazer para a economia do México. Ademais, apresento dados estatísticos que ilustram: i) essa relação bilateral de comércio; ii) o grau de dependência do México em relação aos Estados Unidos; e iii) a relação entre pesquisas de intenção de voto e o movimento da taxa de câmbio entre o peso e o dólar. Por fim, ofereço recomendações em caso de uma vitória do candidato do Partido Republicano, Donald Trump.  

 

Hillary ou Trump?

 

Desde a eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos, em 2009, houve uma expansão do produto interno bruto (PIB) do país. No entanto, a sociedade estadunidense é marcada pela polarização. Em grande medida, a atual atmosfera deriva do aumento da desigualdade: projeções apontam que 2% dos cidadãos possuem 90% da riqueza do país. Nesse contexto, a população escolherá um novo presidente em novembro de 2016.

 

O acirramento entre os dois principais candidatos à Presidência dos Estados Unidos aumenta a cada dia. Antes equivalente a 10 pontos percentuais, a diferença entre Hillary Clinton e Donald Trump chegou a três pontos em setembro de 2016. Em pelo menos uma pesquisa, um empate técnico foi apontado.

 

Particularmente, acredito que Hillary Clinton sairá vitoriosa das eleições de 8 de novembro. De qualquer maneira, as intenções de voto permitem que tracemos tendências e possíveis resultados. Caso não se deixem levar pela emoção, os eleitores estadunidenses manterão o Partido Democrata na Casa Branca.

 

O México ocupa o centro da discórdia nas atuais eleições presidenciais do país vizinho. Jamais o país havia ocupado um papel tão proeminente no debate político estadunidense. Abusando da retórica nacionalista, Donald Trump pretende construir um muro separando os dois países. O candidato pelo Partido Republicano espera que os próprios mexicanos financiem a obra. O método de cobrança seria um imposto sobre as remessas daqueles que atualmente trabalham ao Norte do Rio Grande.

 

O discurso de Trump traz uma novidade: o México nunca havia sido tão severamente criticado por um candidato à Presidência dos Estados Unidos. A retórica nacionalista tem sido apoiada por milhões de cidadãos estadunidenses, o que ajuda a explicar a indicação do bilionário como candidato pelo Partido Republicano.

 

Trump derrotou 16 concorrentes até ser indicado pelo Partido Republicano. Ao basear sua campanha em uma retórica de confrontação e medo, Donald Trump apela às emoções dos ouvintes. No atual ciclo eleitoral, o desfecho tem sido ira e ressentimento. É bem verdade, o chamado "sonho americano" dos anos 1950 e 1960 parece ter desaparecido para milhões de cidadãos estadunidenses. Não por acaso, o bilionário defende uma volta aos "velhos tempos". De um lado, busca o apoio dos marginalizados, de comunidades rurais e da classe média; de outro, promete liberdade de ação e proteção do poder econômico aos pares da classe empresarial.

 

No que se refere às relações com o México, a campanha de Donald Trump apresenta algumas ideias fundamentais: i) expulsão dos imigrantes cuja documentação está irregular; ii) negativa à naturalização dessas pessoas; iii) aumento do imposto às importações; iv) aumento no preço de diversas categorias de vistos de entrada aos Estados Unidos; v) construção de um muro de 1.600 quilômetros; e vi) ameaça de modificação do Patriot Act, com o objetivo de encerrar o fluxo de remessas financeiras ao território do país vizinho[1].

 

Em comparação com Donald Trump, Hillary Clinton possui enorme experiência política. Primeira-dama dos Estados Unidos durante oito anos, na década de 1990, conviveu com o processo decisório na administração de seu marido, Bill Clinton. Secretária de Estado na primeira administração Obama, contrasta com Trump por seu discurso preciso e repleto de propostas. Por isso, é provável que obtenha vitória caso a maioria dos eleitores escolham com a razão.

 

Quais são as oportunidades e riscos trazidos pelas eleições à Presidência dos Estados Unidos para a economia do México? Atualmente, as relações bilaterais estão debilitadas, principalmente após o convite do governo mexicano a ambos os candidatos para que visitassem o país. Feito em um momento marcado pela liderança de Hillary Clinton nas pesquisas, o convite acabou por constituir um erro de cálculo. Afinal, Trump aceitou imediatamente a oferta, confiante de que a viagem fortaleceria sua campanha. Desconfortável por receber tratamento semelhante àquele dado a um indivíduo conhecido pelos insultos ao país vizinho, a candidata do Partido Democrata não aceitou participar da iniciativa.

 

Diante do cenário atual, mesmo uma vitória de Hillary não significaria relações bilaterais ativas em um primeiro momento. Já no caso de um triunfo de Trump, a confrontação deverá ser a regra. Logo após voltar aos Estados Unidos, o candidato do Partido Republicano manteve a promessa de que o governo mexicano pagará pela construção do muro. Em resumo, o México enfrentará desafios seja qual for o desfecho das eleições. A seguir, discuto potenciais respostas a uma administração de Trump. Antes disso, entretanto, discuto os elementos centrais que explicam a vulnerabilidade do México em momentos de mudança em Washington.

 

A importância da economia estadunidense para o México

 

O México tem bons motivos para se interessar pelas eleições estadunidenses. Atualmente, cerca de 35 milhões de mexicanos e descendentes vivem nos Estados Unidos – o equivalente a 63% do total de imigrantes do país. Em 1980, eram 8,8 milhões. Desse contingente, 12 milhões de pessoas não possuem documentos – população superior àquela encontrada em 31 dos 32 estados do México. Um dos principais alvos da retórica de Trump, esse grupo é constituído por indivíduos em busca de uma melhor qualidade de vida. Nesse sentido, são falsas as afirmações do candidato de que a explicação da criminalidade ao Norte do Rio Grande pode ser encontrada nessa população mexicana. Ainda assim, uma vitória do Partido Republicano poderia implicar a expulsão de um grande número de pessoas.

 

Ademais, os Estados Unidos constituem um parceiro comercial fundamental para o México, como mostram as estatísticas. Cerca de 81% das exportações mexicanas têm como destino final o mercado estadunidense. Por sua vez, as importações do país vizinho equivalem a 47% do total comprado pelo México. Marcada pela perenidade e profundidade, as relações bilaterais ganhariam fôlego adicional com a assinatura do NAFTA (ver Figura 1). Em 2016, o comércio entre os dois países atingiu a marca de quase US$ 1 milhão por minuto.

 

  

 

Desde a assinatura do NAFTA, as exportações mexicanas aos Estados Unidos cresceram exponencialmente. De US$ 42 bilhões em 1993, as vendas totalizaram US$ 308 bilhões em 2015. Por sua vez, a participação estadunidense no comércio total do México chega a 40%. Tamanha dependência explica a vulnerabilidade do país às mudanças políticas em Washington.

 

O peso da vulnerabilidade

 

Diante da atual situação de vulnerabilidade, uma vitória de Donald Trump traria a necessidade de uma redução da dependência em relação aos Estados Unidos. A fim de alcançar tal objetivo, o governo mexicano deve esboçar um amplo conjunto de políticas, lidando com questões comerciais, financeiras e industriais. Uma das economias mais abertas da América Latina, o México possui acordos de livre comércio com 46 países, além de tratados de promoção e proteção recíproca de investimentos com 33 países. Por fim, conta com nove acordos de alcance limitado no âmbito da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI).

 

Apesar da intensa integração com a economia estadunidense, o intercâmbio crescente com os chineses abre possibilidades que merecem atenção. Na atualidade, a China já é a segunda principal parceira do México. Do mesmo modo, a Parceria Transpacífica (TPP, sigla em inglês) abre a possibilidade de uma expansão dos fluxos comerciais baseada no fomento à inovação e à competitividade. 

 

Contudo, o aproveitamento das vantagens oferecidas por iniciativas como a TPP depende de reformas internas. Ao México, caberá produzir mais e melhor para o mercado internacional, incrementando a eficiência tanto do setor público como do privado. Igualmente, são necessários investimentos em infraestrutura. Caso o básico não seja resolvido, pouco importará o resultado das eleições estadunidenses ou suas consequências posteriores. Diga-se de passagem, tampouco servirá a assinatura de novos acordos. O governo mexicano deve agir não porque uma vitória de Trump é ameaçadora, mas porque gargalos estruturais dificultam o desenvolvimento do país.

 

Antes disso, caberá ao governo lidar com questões imediatas. A incerteza afeta o câmbio, uma variável central para um país tão dependente daquilo que ocorre do outro lado de suas fronteiras. À medida que aumenta a disputa entre Clinton e Trump, também ganha força a depreciação do peso mexicano. Com isso, empresas baseadas no México têm que lidar com custos crescentes para a importação de insumos. A compra de bens de capital também é afetada. Na outra ponta, consumidores sofrem com uma acelerada inflação.

 

Considerações finais

 

Para além da demagogia de Trump, muitas de suas propostas dependem de aprovação no Congresso. De fato, essa é a principal fortaleza da democracia. A renovação total da Câmara dos Representantes e de um terço do Senado em 2016 cria a necessidade de que o Partido Republicano obtenha maiorias em ambos os casos. Atualmente, tal probabilidade é pequena.

 

Acredito que uma vitória de Trump seria positiva para o México. Afinal, o governo mexicano poderia repensar sua estratégia comercial, estruturando-a como parte de uma política pública de fomento à expansão do mercado interno. Ao limitarmos a dependência em relação aos Estados Unidos, reforçaríamos nossa capacidade de atuação, criando a possibilidade de construção de uma economia mais inclusiva.  

 

Independentemente do resultado final das eleições, o México deve buscar um aprofundamento das relações comerciais com outras regiões do mundo. É bem verdade que uma vitória de Trump traria desafios ao México em um primeiro momento. No entanto, o estabelecimento de uma estratégia de longo prazo voltada ao fortalecimento do mercado interno mexicano faria com que a má notícia se transformasse em um incentivo para mudanças positivas.

 

* Maximiliano Gracia Hernández é doutor em Economia Internacional. Professor e pesquisador no Colegio del Estado de Hidalgo, México.




[1] Apenas no primeiro semestre de 2016, tais transferências chegaram a US$ 13 bilhões.

This article is published under
18 Julho 2017
Neste artigo, os autores analisam os principais efeitos da Operação “Carne Fraca”, principalmente no que diz respeito à reputação e credibilidade do setor de carnes do Brasil no mercado internacional, e discutem como isso pode afetar as negociações comerciais das quais o país é parte.
Share: 
18 Julho 2017
O setor da carne bovina representa como poucos as contradições do Brasil. Usado costumeiramente para exemplificar nossas vantagens comparativas, foi também o receptor de vultosos investimentos...
Share: