Um contrato sociotecnológico para a América Latina

25 Junho 2018

Como a automatização acelerada afetará a integração e o comércio na América Latina? Essa é uma pergunta-chave que está sendo levantada, como resultado do crescimento exponencial das tecnologias atuais. À luz da Quarta Revolução Industrial, a robotização busca transformar a matriz produtiva, e nós devemos garantir que essas mudanças tecnológicas contribuam para a igualdade social.

 

A Quarta Revolução Industrial – e as tecnologias disruptivas que tornam essas mudanças possíveis – criaram novos mercados a partir do zero. A Federação Internacional de Robótica estima que mais de 1,3 milhão de robôs industriais operaram em fábricas de todo o mundo em 2017. Cerca de 75% desses robôs concentram-se em cinco países desenvolvidos – entre eles, Coreia do Sul, Alemanha e Japão registram as maiores concentrações de robôs por trabalhador industrial[1]. Como consequência desse processo, muitos bens e profissões se tornaram obsoletos, incentivando as empresas a projetar estratégias para satisfazer novas necessidades. Os sistemas educativos também buscam formas de acompanhar o ritmo, geralmente frenético, das novas exigências de habilidades.

 

Na América Latina, a quantidade de robôs continua pequena: 27.700, localizados sobretudo no México e no Brasil. No entanto, as tendências observadas em outras regiões nos convidam a pensar no futuro. A América Latina tem algo a dizer sobre essas transformações tecnológicas disruptivas? Podemos trazer uma nova perspectiva à mesa, abordando o problema com um enfoque humanista? Ainda temos que organizar as estratégias preventivas e proativas que aproveitem os desenvolvimentos tecnológicos e permitam mudar os indicadores de pobreza e de desigualdade na região. Mais importante ainda, devemos forjar um contrato sociotecnológico para a América Latina que combine o conhecimento avançado com a ciência e um conjunto adequado de princípios.

 

Automatização e organização econômica

 

No que se refere a comércio e integração, a automatização de postos de trabalho transformará as cadeias globais de valor. Esse fenômeno pode levar à realocação das fábricas – o que, por sua vez, conduz à substituição de trabalhadores por robôs. Do mesmo modo, a crescente oferta de trabalhadores independentes, que podem operar de forma remota, cria novas possibilidades para a organização das cadeias de valor. Junto com certo desencanto com os recentes efeitos da globalização, esse processo pode marcar o começo do fim da produção descentralizada e das cadeias globais de valor que conectam as diversas partes do mundo. Martin Ford estima[2] que pelo menos a metade de todas as empresas estadunidenses com vendas anuais acima de US$ 10 bilhões avalia retornar as fábricas para seu país de origem.

 

Ao realocar os centros de produção, as empresas reduziriam seus custos de transporte e se aproximariam dos consumidores. Esses novos esquemas de produção permitem às empresas fabricar projetos sob medida para cada cliente em questão de dias, ou até horas. Além disso, existem outras oportunidades que resultam da automatização, como a diminuição de acidentes, a melhoria das condições de trabalho, o aumento da produtividade e a diminuição de custos. O comércio em setores estratégicos também pode se beneficiar desse processo, já que a incorporação de robôs parece estar associada a um crescimento nas exportações durante as primeiras etapas do processo de automatização[3].

 

Como esse processo afetará a América Latina? É claro que as novas tendências criaram novas oportunidades econômicas. Na América Latina, os serviços baseados no conhecimento e as áreas mais novas ou menos estabelecidas – como o das empresas fintech, biotecnologia, segurança cibernética, sistemas de pagamento único, robótica de serviços e comércio eletrônico – se beneficiaram com a automatização. O mesmo se aplica aos trabalhos “verdes” intensivos em tecnologia, como aqueles relacionados a energias renováveis, gestão florestal e reciclagem.

 

O outro lado da moeda desse processo é que a automatização ameaça levar o desemprego tecnológico a níveis sem precedentes. Uma parte substancial das exportações e do emprego na América Latina e no Caribe se concentra em atividades que correm o risco de serem automatizadas, como setores da indústria com uso intensivo de mão-de-obra, a extração de recursos naturais e os serviços com um grau de especialização intermediário em áreas como a contábil, a legal ou de gestão. Os trabalhadores altamente capacitados tampouco ficarão imunes a essas mudanças. Nos últimos 10 anos, bibliotecários, tradutores e agentes de viagem viram uma queda de mais de 20% na oferta de emprego. Engenheiros, matemáticos, advogados e contadores, junto com outros profissionais liberais nos setores público e privado, também podem ser afetados.

 

Enfrentando os futuros desafios

 

Se a economia digital é o futuro, como os países da América Latina e do Caribe deveriam responder às novas tendências econômicas? A região precisa reprogramar sua estratégia de desenvolvimento de longo prazo. A principal vantagem da economia digital é a proliferação de serviços a um custo marginal próximo a zero.

 

Dada a estrutura econômica que caracteriza a América Latina e o Caribe, isso também representa um desafio. As esperanças depositadas nas commodities não renderam frutos, e as economias locais continuam a sofrer por causa de sua vulnerabilidade em função dos ciclos de preços dos produtos tradicionais de exportação[4]. A diversificação das exportações por meio de processos que agreguem valor aos produtos básicos e a implementação de novas estratégias de desenvolvimento nas quais a inovação seja o motor do crescimento são ingredientes fundamentais para encontrar a fórmula do sucesso.

 

As políticas de integração – organizadas em torno de políticas de compras governamentais regionais, por exemplo – podem desempenhar um papel na criação de clusters de inovação e no fomento da criatividade. Além disso, os acordos comerciais devem se adaptar às consequências da Quarta Revolução Industrial: as negociações ficaram para trás em relação ao processo extremamente rápido de mudança tecnológica. Atualmente, a arquitetura institucional e normativa dos acordos comerciais não está sincronizada com a inovação, e essa é uma brecha que precisa ser discutida. Por exemplo, o comércio de serviços baseados em telerobótica e telepresença exigirá esforços multilaterais para harmonizar normas e padrões obsoletos. Existe um precedente importante para a ação: como mostram Santiago Chelala e Inmaculada Martínez-Zarzoso[5], os acordos comerciais ajudaram a reduzir a distância tecnológica entre os países signatários. Esse resultado deriva dos efeitos indiretos de conhecimento que vêm com um maior movimento de bens, serviços e pessoas, e com a intensificação das transferências de tecnologia entre empresas.

 

Nossa missão é reconfigurar a América Latina, melhorar sua conexão com o mundo e seu acesso a novos mercados, ao mesmo tempo em que aumentamos o comércio intrarregional e com o resto do mundo. Essa nova convergência será inevitavelmente de natureza híbrida: em parte digital e em parte física. O “comércio de containers” e as lentas e complexas fronteiras do passado cederam lugar a formas de comércio mais instantâneas. Os livros eletrônicos são um bom exemplo dessa tendência, na qual também estão incluídos serviços como o online banking e novas formas de pagamento que combinam plataformas digitais com sucursais bancárias, e que oferecem também serviços cada vez mais personalizados.

 

A economia digital também pode fazer com que os setores econômicos tradicionais se tornem mais eficientes. Em todo o mundo, 33% dos alimentos produzidos anualmente são desperdiçados por causa de deficiências e falhas nas cadeias logísticas. Nesse sentido, os avanços tecnológicos nos trazem excelentes notícias. Tomemos o caso da “Internet das Coisas” (IoT, sigla em inglês), que pode reduzir o tempo de resposta do serviço de atenção ao cliente em cerca de 30%, e os custos de armazenamento em 15%[6]. Do mesmo modo, a IoT pode predizer a demanda futura com uma precisão de 90%. Diante disso, 96% das empresas de transformação e transporte afirmam que a IoT é a inovação mais importante desde 2005.

 

Outro exemplo interessante pode ser encontrado nos recentes avanços na área de agricultura de precisão. A União Europeia (UE) incentivou dois projetos que apontam para a expansão da fronteira tecnológica da agricultura robótica: o projeto Clever Robots for Crops (CROPS); e o projeto Sweeper, que utiliza a nanotecnologia e novos materiais para automatizar a produção primária. O objetivo da UE é introduzir no mercado a primeira colheitadeira robotizada para estufas em 2020. A América Latina precisa acompanhar esses avanços, que apagam os limites entre a indústria e a agricultura e entre bens e serviços.

 

Estamos presenciando novas sinergias e associações que transcendem as fronteiras entre empresas e seus principais negócios, criando novas conexões e complementaridades impensáveis há pouco tempo. Os exemplos incluem a recente associação entre a Uber e a Embraer para fabricar táxis voadores em 2020, ou a associação entre o Google e a Ford para produzir automóveis sem tração. Dessas transformações estruturais, surgirão “ganhadores e perdedores”. Como abordar as tensões sociais geradas no processo de automatização acelerada? 

 

Um contrato sociotecnológico para a América Latina

 

Estamos vivendo tempos paradoxais: embora nunca tenhamos criado tanta riqueza na história, não conseguimos garantir uma vida digna para todos. Os economistas Robert Solow e Dani Rodrik concordam que o êxito ou fracasso da globalização dependerá de garantir que os lucros digitais sejam distribuídos de forma equitativa. Para tanto, é essencial repensar o Estado de Bem-estar clássico. Na era da automatização, não podemos esperar que os interesses individuais definam, de forma autônoma, a direção ou prioridades da coesão social.

 

Também necessitamos de regras mais claras. Em primeiro lugar, o que impede a introdução de inovações no processo de negociação coletiva, pavimentando o caminho para um plano de modernização a longo prazo baseado em um contrato sociotecnológico que reúna trabalhadores, empresários e governo? Os acordos multi-setoriais já foram implementados na Alemanha, Espanha, França e Reino Unido e deram lugar a políticas industriais nacionais do tipo 4.0.

 

Como destaca o economista Robert Aumann, a educação deve ser a maior prioridade nas políticas públicas. A melhor maneira de se preparar para o futuro é com uma maior e melhor oferta educativa.. Os desafios da mudança tecnológica exigem uma educação de alto nível, focada nas habilidades que o futuro requer. A chave é desenvolver as capacidades tecnológicas dos trabalhadores, para que possam interagir diariamente com as máquinas e os robôs. Por exemplo, necessitamos promover a alfabetização de big data na América Latina, utilizando cursos online abertos e massivos (MOOC, sigla em inglês) que permitam democratizar o acesso ao conhecimento. Também é importante estabelecer marcos legais, assim como antecipar as dificuldades que as novas formas de emprego geram para o financiamento da segurança social.

 

A revolução educacional deve focar nas “habilidades sutis”, tais como a inteligência emocional, a empatia e a criatividade. Possuir o talento de resolver problemas é um atributo fundamental, mas ter a capacidade de levantar novas questões é chave no mundo econômico que está por vir. Essas habilidades interpessoais serão importantes para os médicos, enfermeiros, psicólogos, trabalhadores sociais e professores, já que estão no centro das tarefas que não podem ser robotizadas. Ao mesmo tempo, precisamos criar redes de apoio e uma cobertura de segurança social que ajudem as pessoas a realizarem uma transição eficaz para a economia digital. Precisamos redesenhar as políticas sociais e implementar programas novos e mais criativos de transferências monetárias condicionadas, que incluam capacitação em habilidades tecnológicas. Do mesmo modo, temos que analisar profundamente as medidas paliativas, como a renda mínima universal ou os impostos sobre robôs.

 

Nesse sentido, devemos promover o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), confiando não apenas no setor público, mas também nos esquemas público-privados e em outras associações com instituições acadêmicas. As cifras atuais de P&D são alarmantes: os países da América Latina e Caribe investem apenas 0,7% de seu produto interno bruto (PIB) total nessas atividades, enquanto que, na América do Norte e na Europa, a taxa média é de 2,5% e, na Ásia-Pacífico, de 2,1%.

 

Uma fórmula completa para amortecer o impacto da mudança tecnológica também deve incluir outros fatores, como a diversificação das exportações; a promoção das pequenas e médias empresas; o incentivo à “economia laranja” e às indústrias criativas; a criação de incentivos para a cooperação internacional; a ampliação das políticas redistributivas; e a melhoria das normas ambientais e de segurança alimentar. Considerando a magnitude do desafio que se anuncia, não há tempo a perder. É nosso dever estarmos preparados e criar as condições adequadas para liderar a transição tecnológica para países mais inteligentes e economias mais sólidas e inclusivas.

 

* Gustavo Béliz é diretor do Instituto para a Integração da América Latina e do Caribe (INTAL), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).




[1] Ver: Pacini, B.; Sartorio, L. ¿Deslocalización o relocalización? El caso de la industria automotriz. In: Integración & Comercio, No. 42, 2017. Disponível em: <https://bit.ly/2xqg2Jx˃. 

[2] Ver: Ford, M. Rise of the robots: Technology and the threats of a jobless future. New York: Basic Books, 2015.

[3] Ver: Pacini, B.; Sartorio, L. (2017).

[4] Ver: Giordano, P. Downshifting: Latin America and the Caribbean in the new normal of global trade. In: Trade and integration monitor 2016, BID. Disponível em: ˂https://bit.ly/2f7QQ3g˃.

[5] Ver: Chelala, S.; Martínez-Zarzoso, I. ¿Sesgo anti-innovación? El impacto tecnológico de los acuerdos comerciales. In: Integración & Comercio, No. 42, 2017. Disponível em: ˂https://bit.ly/2xqg2Jx˃.

[6] Ver: ˂https://bit.ly/2HtZc4c˃.   

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